Trabalhar sem sair de casa era o sonho de muita gente e acabou virando realidade para muitos. Sem trânsito, sem dresscode, sem chefe por perto, as vantagens são grandes, mas existem desvantagens que só são notadas ao longo do tempo.
Um estudo publicado na revista científica Science, realizado entre 2011 e 2024 com 568 mil pessoas, revelou que o trabalho remoto responde por aproximadamente um terço do aumento geral no sofrimento psicológico nos últimos anos. A pesquisa foi realizada por cientistas da Universidade de Stanford, da Universidade de Chicago e do Banco da Reserva Federal de Nova York e revelou que 83,6% dos profissionais em home office relataram ao menos um sintoma psicológico, entre eles: ansiedade, dificuldade de concentração, exaustão, insônia, isolamento ou depressão.
Também recebo grandes queixas de quem faz home office, como sentir-se antissocial, falta de vontade de interagir socialmente, procrastinação, dificuldade de gerenciar o tempo e sentimento de depressão.
Em casa, tudo isso desaparece e leva junto uma fonte de pertencimento e regulação emocional. O estudo também mostrou que, para quem mora sozinho, o impacto é ainda maior: a probabilidade de passar o dia inteiro sem qualquer contato social aumenta para 83%.
Outro ponto crítico é a dissolução das fronteiras entre trabalho e vida pessoal. Sem um espaço físico separado, a mente não faz distinção e, por isso, não desliga completamente. A mesa de jantar vira escritório, a reunião ocupa o horário do almoço, o “fim do expediente” deixa de existir, pois não há horários delimitados. Uma pesquisa da USP indicou que profissionais em home office relatam 28% mais sintomas de burnout devido à dificuldade em separar vida profissional e pessoal. O corpo para de trabalhar, mas a cabeça nunca sai do trabalho.
No estudo, o trabalho remoto aumentou o conflito familiar em até 35%, elevando níveis de irritabilidade, ansiedade e exaustão emocional. Para as mães, o peso é proporcionalmente maior: elas se sentem mais sobrecarregadas e têm 42% mais chances de desenvolver sintomas de ansiedade.
Esses dados não significam que o home office seja necessariamente ruim; apenas significam que ele exige um cuidado que muita gente não tem, como criar rituais de início e fim de expediente, manter contato social e realizar atividades externas diárias.
A liberdade de trabalhar de casa é um privilégio, mas liberdade sem disciplina vira autodestruição, e o impacto recai diretamente sobre a saúde mental.