Simone DemolinariPsicanalista com Mestrado e dissertação em Anomalias Comportamentais, apresentadora na 102,9 e 98 FM

Quando a família é tóxica

Publicado em 28/05/2026 às 06:00.

Existe uma crença muito enraizada em nossa cultura de que família é a base de tudo, além de sagrada. Por isso, independentemente do que aconteça, os laços de sangue devem ser preservados e considerados como o lugar mais seguro para apoiar nossas necessidades. Mas e quando esses laços não nos oferecem um abrigo sereno e custam a nossa saúde mental?

No consultório, ouço com frequência histórias de pessoas que convivem com famílias completamente desestruturadas e geradoras de grandes aborrecimentos — mas, mesmo sofrendo com essa conduta, não conseguem colocar limites devido a um forte sentimento de culpa. É difícil olhar para nossos familiares e constatar comportamentos de disputa e inveja, pois parece que somos ingratos e desnaturados. Com isso, seguimos relativizando os abusos. Mas, afinal, como perceber se temos uma família abusiva?

Avaliar isso não é fácil, mesmo porque a violência vem embalada de amor. O veneno é sutil: é a crítica disfarçada de preocupação; o controle apresentado como proteção; manipulação emocional que usa o cuidado como moeda de troca; é o familiar que humilha em público e fala que foi brincadeira. Muitas vezes, as maldades não são verbalizadas, mas  sentidas. Sempre que há uma invalidação ou julgamento, a pessoa sai se sentindo diminuída, ansiosa, irritada e até duvidando da própria capacidade. 

Algumas perguntas podem auxiliar nessa percepção: 

- Você sai dos encontros familiares emocionalmente esgotado? 
- Sente que precisa mentir ou omitir para não ser criticado?
- Concorda com algo que não gostaria só para não render o assunto?
- Tende a se diminuir para ser aceito? 
- Pisa em ovos para não provocar conflitos? 
- Se sente mais julgado do que acolhido?
- Sente que suas conquistas geram inveja e pouca alegria? 
- Sua família  estimula o medo disfarçado de cuidado?

Se sua resposta foi SIM para maioria das perguntas, vale acender uma luz amarela. 

A toxidade da família ocorre por repetição de padrões: pais que não sabem acolher porque também não foram acolhidos, irmãos que competem porque aprenderam que o amor era escasso, criação mais focada na cobrança do que no carinho. Não se trata de má intenção ou falta de amor, mas o impacto emocional que esse comportamento causa é desastroso. Criam-se filhos inseguros, medrosos e com dificuldade de se posicionarem por medo da rejeição. 

Reconhecer que temos uma família tóxica não implica em romper os laços, e sim em se afastar emocionalmente. Mas é preciso entender que existem 3 tipos de afastamento: o físico, que nem sempre é possível; o afetivo, que ocorre quando acabamos desgostando de algum familiar; e o emocional, que é o ideal. Se afastar emocionalmente é não permitir que o comportamento da família dite a forma como iremos nos sentir. É quando nos blindamos para que as críticas não rebaixem nossa autoestima. 

Enquanto não enxergarmos, com honestidade, a nossa dinâmica familiar, continuaremos carregando um peso dentro de nós e chamando isso de amor.

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