É assustador e crescente o número de casos de violência doméstica contra a mulher, culminando, muitas vezes, em feminicídios. A mídia nos apresenta episódios diariamente, fora aqueles que não se tornam públicos, ou seja, a situação é muito pior do que podemos imaginar.
São muitos os questionamentos, e uma pergunta frequente é: por que alguém permanece por tanto tempo numa relação tóxica?
A resposta não é simples e requer cautela. Uma relação abusiva se constrói aos poucos, e as agressões vão crescendo de forma silenciosa, gradual, quase imperceptível. Para entender melhor a construção perversa, algumas análises merecem ser consideradas.
Por exemplo, o controle escamoteado de amor. À primeira vista parece cuidado, mas na verdade é a forma de ter o comando de toda situação, já que a vítima acredita estar sendo protegida e não percebe a manipulação. Aqui temos vários exemplos, desde uma câmera instalada no carro, com o consentimento de todos, justificando a segurança, até a administração do dinheiro, escolha das roupas e amigos, tudo apoiado na premissa de “quem ama cuida”.
E não me refiro a comportamentos desrespeitosos, mas a coisas simples ou imaginárias, como cismar que ela está olhando para outro homem.
Além disso, um comportamento típico de homens abusivos é fazer a mulher acreditar que ela está errada, que é louca, que tudo foi culpa dela. Não há abertura para um diálogo calmo. O clima é sempre tenso e acusativo, fazendo com que a mulher assuma a culpa e peça desculpas para encerrar as acusações.
A forma violenta de se relacionar vem embalada em muitas declarações de amor, promessas infinitas e relações sexuais intensas, tudo isso vira uma montanha russa que ora está em cima e na outra, cai subitamente.
Essa sabedoria nada mais era do que aceitar todas as agressões físicas, verbais, psicológicas, patrimoniais e até traições públicas sem questionar absolutamente nada. A eles tudo era permitido; a elas, somente a aceitação.
A sociedade também sempre marginalizou a mulher que ficava sozinha, a julgando de encalhada ou problemática. Aliás, isso não mudou completamente. A mulher “bem sucedida” aos olhos da sociedade é aquela casada e com filhos. Uma lástima, pois é um pensamento na contramão do ditado tão amplamente repetido: “antes só que mal acompanhado”. Casar a qualquer custo é afirmar exatamente o contrário disso.
Também não se pode ignorar a falta de apoio efetivo. Muitas mulheres, ao tentarem falar, são desacreditadas ou aconselhadas a “ter paciência”. Esse tipo de pensamento reforça o silêncio e prolonga a exposição ao risco.
Não conseguimos modificar o caráter agressivo do homem abusador; nos cabe apenas estarmos atentas aos sinais e nos desvencilharmos, o mais rápido possível, daquilo que não traz paz. É importante ter em mente que ao unirmos a nossa vida à de alguém a regra principal é que ela fique sempre melhor, jamais pior.