Uma das frases que mais ouço no consultório, após uma descoberta dolorosa, é: "no fundo, estava tudo na minha frente, mas não queria ver". E essa constatação diz muito sobre algo que poucos admitem: há situações em que preferimos a mentira à verdade dolorosa. Não por ingenuidade, mas por vontade de realizar a fantasia que idealizamos. Na maioria das vezes, somos nós que pedimos para sermos enganados.
Alguns mecanismos explicam essa tendência inconsciente pelo gosto de ser enganado:
Medo das consequências: saber a verdade sobre uma traição, por exemplo, nos obriga a agir, e isso pode significar abrir mão de uma zona de conforto. Por isso, muitos preferem fazer vista grossa para não ter que se movimentar.
O mesmo ocorre com diagnósticos de doenças graves. Conheço uma pessoa que, ao receber um resultado preocupante, esperou um tempo para "pensar no que fazer" e simplesmente esqueceu do exame. O esquecimento é mais comum do que parece em situações de grande dor.
Espertismo: há quem seja enganado por querer levar vantagem. São pessoas que buscam atalhos, querem solução fácil para problema difícil e ao invés de fazer o trabalho duro preferem acreditar em guru da internet com a fórmula dos 5 passos para ser feliz ou como ficar rico sem trabalhar. Quando o charlatão encontra o trouxa, sai negócio. Aliás, o enganador só prospera porque tem público.
Necessidade de validação: há pessoas que buscam, nas opiniões alheias, apenas a confirmação do que querem ouvir. Quem diz o que agrada é bem recebido; quem é sincero é chamado de invejoso ou negativo. E assim cercam-se de espelhos que reforçam a própria mentira.
Esses também são os que adoram a figura do “puxa-saco", pois eles bajulam independentemente da realidade.
Autoengano: talvez a forma mais sofisticada de escolher uma mentira. A pessoa não é enganada pelo outro, mas por si mesma. Constrói uma narrativa para se proteger e condena o outro pelo mesmo crime que comete. Um duplo padrão moral : para o outro, a critica; para si, justificativa.
Negação: um dos mecanismos de defesa mais comuns. Diante de uma realidade insuportável, a mente simplesmente se recusa a enxergar a verdade. Não é fraqueza, e sim uma forma de proteção.
O sujeito vai varrendo a poeira para debaixo do tapete, remediando aquilo que um dia se tornará insustentável. No consultório, isso aparece com frequência nas relações afetivas. A pessoa percebe os sinais, sente que algo não vai bem, nota o afastamento, mas insiste em tapar o sol com a peneira.
É importante ponderar um lado cultural nisso. Nossa sociedade valoriza muito a falsidade: considera a verdade como grosseria e o elogio mentiroso como gentileza. Com isso, aprendemos, desde cedo, que devemos dizer ao outro o que ele quer ouvir, e com isso também preferimos a mentira.
Deixar de gostar de ser enganado exige maturidade emocional para suportar, com serenidade, a verdade e confiar que ela nos conduzirá a um lugar muito mais sólido.