
Antes de sair de casa, ela apagou as luzes da cozinha, conferiu se a porta estava trancada e entrou no elevador carregando a mesma sensação que a acompanhava havia bastante tempo: a de estar funcionando no automático, fazendo tudo por obrigação, como quem cumpre tarefas sem conseguir participar delas por inteiro, porque o corpo seguia a rotina de sempre, respondia mensagens, participava de reuniões, resolvia pendências e sorria quando necessário, só que a mente permanecia presa a perguntas para as quais ainda não existiam respostas. E parecia haver momentos em que ela nem queria respostas, mas alguma coisa que nem ela sabia o que era.
Quase ninguém percebe o esforço escondido por trás de quem continua trabalhando, estudando, cuidando dos filhos e comparecendo aos compromissos enquanto tenta lidar com a morte de alguém querido, com o fim de um relacionamento, com o medo do desemprego, com a exaustão de quem passa noites em claro ou com a solidão de uma casa que, de repente, foi se esvaziando.
A gente vive cercado de pessoas que atravessam batalhas invisíveis e que aprenderam a disfarçar o próprio sofrimento para não serem vistas como fracas e para não incomodar ninguém. Nem sempre é permitido dar a si mesmo um espaço para dizer que se está cansado, assustado ou simplesmente perdido; o colega que se atrasou para a reunião pode ter passado a madrugada com insônia, a amiga que sumiu das redes sociais talvez esteja tentando reunir forças para enfrentar mais um dia, e o vizinho que evita conversas rápidas no elevador pode estar cansado de ouvir conselhos de quem nunca percebeu, de fato, como ele está.
Existe uma expectativa silenciosa de que a dor tenha prazo para acabar e de que a superação aconteça no tempo considerado aceitável pelos outros, como se fosse possível marcar no calendário o dia exato em que o luto deixará de apertar o peito, a ansiedade deixará de roubar o sono ou a tristeza perderá a capacidade de transformar gestos simples em tarefas difíceis.
A genialidade de Clarice Lispector nos alerta: "Eu sou mais forte do que eu." A escritora sugere que existe, em cada pessoa, uma dimensão mais profunda e resistente do que aquela que aparece nos momentos de medo, insegurança ou fragilidade, afinal, a força nem sempre se manifesta de maneira grandiosa e raramente chega acompanhada de certezas.
Lembro-me bem das palestras da jornalista Larissa Carvalho, nas quais ela contava que, ao descobrir a doença rara do filho, precisou buscar ajuda médica para si mesma, a fim de aprender a lidar com a nova realidade que passaria a fazer parte da vida da família; precisou de medicamentos, do apoio de amigos e de noites de choro, mas foi nesse processo que nasceu a mãe do Théo.
Isso não é romantização da dor, mas a admissão de que ela existe.
Rodrigo Faria escreveu que "foi pra repensar a luz que eu precisei de tanto quarto escuro". Depois de atravessar certos períodos, muita gente descobre que um telefonema pode salvar uma tarde difícil, que um abraço sincero continua sendo uma forma poderosa de cuidado e que a alegria não precisa esperar que tudo esteja resolvido para voltar a existir. Pelo contrário, ela precisa encontrar frestas deixadas por nós para que chegue aos poucos.
Caetano Veloso é um dos poetas contemporâneos que nos traz letras e músicas que conversam com muitos dos nossos momentos: "Respeito muito minhas lágrimas, mas ainda mais minha risada", disse ele em "Vaca Profana". Na mesma canção, surge outro convite que desafia a necessidade de pertencermos o tempo todo ao mesmo rebanho: "Vaca profana, põe teus cornos pra fora e acima da manada."
Os chifres do animal servem para defesa, ajudam a estabelecer limites, comunicam hierarquia e protegem contra ameaças, lembrando que também precisamos aprender a erguer os nossos quando for necessário, não para ferir quem está ao redor, mas para preservar aquilo que não pode ser negociado.