Tio FlávioPalestrante, professor e criador do movimento voluntário Tio Flávio Cultural.

A dor e a luta de uma mãe diante da perda de seus filhos

Publicado em 31/07/2026 às 06:00.


Uma coisa em que eu nunca tinha parado para pensar é que existem perdas que não cabem em nenhuma palavra, literalmente falando. A língua nomeou o órfão, conhece a viúva, mas nunca se atreveu a inventar um nome para quem perde um filho. Talvez porque essa seja uma experiência que desafia qualquer tentativa de definição. A morte rompe a ordem das coisas, mas a morte de um filho parece romper também a própria lógica do tempo. Uma lógica criada por nós, mas que serve de desenho da vida: pais se vão antes dos filhos. Quando o contrário acontece, o futuro deixa de existir como promessa e passa a ser um lugar que nunca será habitado da mesma forma.

É desse território que nasce a obra Tentam nos enterrar, não sabem que somos sementes, de Helena Taliberti, pela editora Ofício da Palavra. Não é um livro sobre a tragédia de Brumadinho, em Minas Gerais, embora ela esteja presente em cada página. Também não é apenas um relato autobiográfico. É um testemunho de amor escrito por uma mãe que vivenciou, e ainda vivencia, uma profunda dor ao receber a notícia de que um derramamento de lama levou a vida de seus dois filhos, Camila e Luiz, além da nora Fernanda, grávida do primeiro neto que ela jamais chegaria a conhecer. O que poderia ter sido “apenas” um mergulho na dor transforma-se numa reflexão delicada sobre memória, permanência e responsabilidade. Sobre a família e o amor mais incondicional que se pode existir.

Sabemos que há livros de todo tipo: uns são técnicos, outros são informativos, outros emocionam. Este, além de emocionar, consegue nos fazer refletir sobre tantas coisas. Helena escreve com a serenidade de quem compreendeu que recordar não é permanecer presa ao passado, mas impedir que a ausência seja reduzida a estatística. Cada lembrança devolve rosto, voz, personalidade e afeto àqueles que poderiam ser lembrados somente como vítimas de um desastre. O livro resgata vidas inteiras, não apenas o instante em que elas foram interrompidas. E isso conecta quem viveu esta história a quem nem a conhecia, mas que a recebe de coração e alma abertos.

O gesto mais bonito, porém, talvez aconteça fora das páginas. A mesma família que poderia ter escolhido o silêncio, o que é direito de quem foi atravessado por uma tragédia, decidiu criar o Instituto Camila e Luiz Taliberti, transformando o luto em ação cultural, ambiental e educativa. Na verdade, não quer dizer que o luto não existiu e não exista ainda, mas que, apesar dele, foi preciso dar sentido à memória dos filhos, para que outras pessoas sejam abraçadas pelo amor à vida que eles tinham.

A memória deixou de ser um lugar de recolhimento para tornar-se um compromisso público. Exposições, debates, cinema, educação e defesa da vida passaram a dar continuidade aos sonhos interrompidos. É uma forma humana de homenagear quem partiu: fazer com que o amor continue produzindo futuro.

Sabemos que notícias de tragédias ganham a atenção da mídia no momento em que acontecem, mas, naturalmente, vão perdendo destaque para outras notícias. Tragédias ocupam manchetes durante alguns dias e depois cedem espaço para o próximo acontecimento. Já que o esquecimento tornou-se quase um hábito coletivo e natural, livros como este cumprem uma tarefa silenciosa e indispensável: eles recusam a velocidade do mundo e nos obrigam a permanecer diante daquilo que preferiríamos evitar, não para alimentar a tristeza, mas para preservar a humanidade.

Ao fechar a última página, fica a impressão de que a grande vitória da lama seria apagar nomes, histórias e afetos. Helena não permite isso e escreve para os filhos, mas também por eles. Só que ela não para por aí, pois escreve para quem já sofreu perdas irreparáveis e para quem ainda acredita que toda vida humana merece ser lembrada com dignidade. Seu livro nos recorda que a memória é uma forma de justiça e que o amor, quando encontra possibilidades para seguir adiante, continua florescendo mesmo sobre a terra que um dia tentou sepultá-lo.

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