
Fiz uma entrevista com duas profissionais brilhantes, que dedicam a vida à educação infantil e a defendem com argumentos teóricos e vivenciais, mas também com amor e convicção.
Andrea Borges, Coordenadora da Vila Marista do Colégio Marista Dom Silvério, e Ana Paula Barros, Orientadora Educacional da Educação Infantil do Colégio Marista Padre Eustáquio, falaram da importância do brincar, da participação da família, da socialização das crianças, do afeto e da proximidade com a escola.
Falaram do espaço do lúdico, da construção do conhecimento e do caráter, que passa por todas as esferas em que a criança transita, tendo família e escola papéis diferentes, mas de grande importância.
Ao postar a entrevista, vários familiares, inclusive pessoas que foram crianças quando as duas profissionais já atuavam com educação, comentaram das lembranças que guardam delas, do carinho com que conduzem seus trabalhos e da dedicação.
Salas de aula da educação infantil já ensinam por si só, na disposição das cadeiras e mesas, no cenário levado para paredes e murais, nos espaços compartilhados. E vai para além desse espaço, quando ganha as quadras, os jardins, as visitas externas e as atividades.
Como diz a Ana Paula, “o brincar é uma linguagem”. A Andrea Borges fala que “o melhor brinquedo é 90% da criança e 10% do brinquedo” e chama a atenção para o excesso de brinquedos industrializados, que podem deixar a criança mais como espectadora do que como criadora.
Lembro da minha tia Nise, que era diretora de uma escola pública dedicada ao ensino infantil em Santa Luzia, MG. Ela conduzia a gestão com o olhar bem cuidadoso para o desenvolvimento daquelas crianças. Muitos alunos que ali passaram hoje a reverenciam, mesmo anos depois de sua morte.
Todos nós temos referências das primeiras professoras e professores. Minha mãe, professora do ensino fundamental 1, hoje recebe convites de formatura em nível de graduação, além de convites para defesas de bancas de mestrado e doutorado de alunos que ela acolheu muitos anos atrás.
Esse país precisa aprender a valorizar mais a educação infantil e seus educadores. Sou professor universitário e, quando chego a algum evento ou lugar, perguntam minha profissão e muita gente me coloca num status de respeito por eu lecionar em faculdade.
Não se trata de diminuir o professor universitário, nem de estabelecer uma disputa entre etapas. O ensino superior trabalha com o aprofundamento do conhecimento. O professor da educação infantil trabalha em outro momento, diante de outra responsabilidade: ajudar a criança a construir referências sobre si, sobre o outro, sobre convivência, autonomia e confiança.
A contradição está no fato de que, quanto mais perto estamos dos fundamentos da formação de uma pessoa, menor costuma ser o reconhecimento atribuído a esse trabalho. O professor universitário recebe um estudante que já percorreu uma longa trajetória e que, antes de chegar à graduação, encontrou adultos que lhe ensinaram a falar, ouvir, conviver, perguntar, descobrir o mundo e acreditar que era capaz de aprender. Não existe ensino superior sem educação básica, e não existe educação básica consistente sem os profissionais que trabalham justamente na base dessa formação.
É por isso que a educação infantil não pode ser tratada como uma preparação menor para aquilo que virá depois. Ela é o lugar onde tantas coisas começam: a curiosidade que leva a perguntar, a autonomia que permite tentar, a convivência que ensina a dividir espaços, a linguagem que dá nome ao que se sente e a brincadeira que transforma uma caixa em casa, um pedaço de papel em desenho e um grupo de crianças em uma pequena comunidade.
Tudo isso acontece sob o olhar de profissionais que precisam conhecer cada criança, compreender seus tempos, criar possibilidades e, ao mesmo tempo, reforçar que o mundo é feito de outras pessoas.