Tio FlávioPalestrante, professor e criador do movimento voluntário Tio Flávio Cultural.

A educação infantil merece mais

Publicado em 21/08/2026 às 06:00.


Fiz uma entrevista com duas profissionais brilhantes, que dedicam a vida à educação infantil e a defendem com argumentos teóricos e vivenciais, mas também com amor e convicção.

Andrea Borges, Coordenadora da Vila Marista do Colégio Marista Dom Silvério, e Ana Paula Barros, Orientadora Educacional da Educação Infantil do Colégio Marista Padre Eustáquio, falaram da importância do brincar, da participação da família, da socialização das crianças, do afeto e da proximidade com a escola. 

Falaram do espaço do lúdico, da construção do conhecimento e do caráter, que passa por todas as esferas em que a criança transita, tendo família e escola papéis diferentes, mas de grande importância.

Ao postar a entrevista, vários familiares, inclusive pessoas que foram crianças quando as duas profissionais já atuavam com educação, comentaram das lembranças que guardam delas, do carinho com que conduzem seus trabalhos e da dedicação.

Sempre que posso, dedico minhas palestras em homenagem à educação infantil, porque temos um mundo de profissionais que estudam, elaboram as aulas, pensam no melhor para cada encontro e para cada aluno, transformam-se em personagens, criam um ambiente mágico, onde a criatividade e a convivência são fomentadas. 

Salas de aula da educação infantil já ensinam por si só, na disposição das cadeiras e mesas, no cenário levado para paredes e murais, nos espaços compartilhados. E vai para além desse espaço, quando ganha as quadras, os jardins, as visitas externas e as atividades.

Como diz a Ana Paula, “o brincar é uma linguagem”. A Andrea Borges fala que “o melhor brinquedo é 90% da criança e 10% do brinquedo” e chama a atenção para o excesso de brinquedos industrializados, que podem deixar a criança mais como espectadora do que como criadora.

Lembro da minha tia Nise, que era diretora de uma escola pública dedicada ao ensino infantil em Santa Luzia, MG. Ela conduzia a gestão com o olhar bem cuidadoso para o desenvolvimento daquelas crianças. Muitos alunos que ali passaram hoje a reverenciam, mesmo anos depois de sua morte. 

Todos nós temos referências das primeiras professoras e professores. Minha mãe, professora do ensino fundamental 1, hoje recebe convites de formatura em nível de graduação, além de convites para defesas de bancas de mestrado e doutorado de alunos que ela acolheu muitos anos atrás.

Esse país precisa aprender a valorizar mais a educação infantil e seus educadores. Sou professor universitário e, quando chego a algum evento ou lugar, perguntam minha profissão e muita gente me coloca num status de respeito por eu lecionar em faculdade.

Queria que esse respeito fosse sempre cultivado, mas que, ao ser perguntada sobre sua profissão, uma pessoa que dissesse “sou professora da educação infantil” recebesse o mesmo reconhecimento. 

Não se trata de diminuir o professor universitário, nem de estabelecer uma disputa entre etapas. O ensino superior trabalha com o aprofundamento do conhecimento. O professor da educação infantil trabalha em outro momento, diante de outra responsabilidade: ajudar a criança a construir referências sobre si, sobre o outro, sobre convivência, autonomia e confiança.

A contradição está no fato de que, quanto mais perto estamos dos fundamentos da formação de uma pessoa, menor costuma ser o reconhecimento atribuído a esse trabalho. O professor universitário recebe um estudante que já percorreu uma longa trajetória e que, antes de chegar à graduação, encontrou adultos que lhe ensinaram a falar, ouvir, conviver, perguntar, descobrir o mundo e acreditar que era capaz de aprender. Não existe ensino superior sem educação básica, e não existe educação básica consistente sem os profissionais que trabalham justamente na base dessa formação. 

É por isso que a educação infantil não pode ser tratada como uma preparação menor para aquilo que virá depois. Ela é o lugar onde tantas coisas começam: a curiosidade que leva a perguntar, a autonomia que permite tentar, a convivência que ensina a dividir espaços, a linguagem que dá nome ao que se sente e a brincadeira que transforma uma caixa em casa, um pedaço de papel em desenho e um grupo de crianças em uma pequena comunidade. 

Tudo isso acontece sob o olhar de profissionais que precisam conhecer cada criança, compreender seus tempos, criar possibilidades e, ao mesmo tempo, reforçar que o mundo é feito de outras pessoas.

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