Tio FlávioPalestrante, professor e criador do movimento voluntário Tio Flávio Cultural.

A solidão e o apagão docentes

Publicado em 18/09/2026 às 07:00.


No ano passado, comecei uma pequena pesquisa com educadores para reunir histórias reais que pudessem compor meu livro sobre o adoecimento docente. O título, “Professores também adoecem”, nasceu de uma constatação que parece simples, mas nem sempre é percebida por quem olha a escola de fora: quem ensina não deixa a própria vida num escaninho da sala dos professores. Entra com suas preocupações, seus cansaços, suas perdas, seus vínculos, suas dúvidas e também com aquilo que recebe do ambiente de trabalho. 

Quando esse entorno adoece, seus efeitos acabam alcançando quem está ali. Quando as próprias dores deixam de ser percebidas, o peso aumenta. Foi nesse contexto que encontrei uma palavra para expressar algo que aparecia repetidamente nas histórias que ouvi: solidão. Não a de quem está fisicamente sozinho, mas aquela que pode surgir no meio de uma escola cheia, entre colegas, estudantes, reuniões, mensagens e tarefas. A solidão de quem não se sente socialmente valorizado e reconhecido.

A solidão social docente é quando o professor não se percebe valorizado pela sociedade, quando sua profissão parece importante nos discursos, mas essa importância não encontra correspondência na maneira como ele é tratado. Reconhecimento não significa receber aplausos todos os dias, nem transformar professor em personagem de homenagem. Significa perceber que aquilo que se faz tem valor para os outros e que esse valor é levado em consideração quando se fala da profissão, das condições de trabalho e da própria pessoa que a exerce.

Uma pesquisa divulgada pelo Instituto Semesp em setembro deste ano trouxe números que ajudam a olhar para essa questão por outro ângulo. Entre 2015 e 2025, o número de professores de até 24 anos caiu 31,1%, enquanto o de docentes com 60 anos ou mais aumentou 104,5%. Na rede pública, a proporção passou a ser de aproximadamente um professor jovem para cada três docentes com 60 anos ou mais. O mesmo estudo aponta uma redução de 16,4% no número de professores concursados e um crescimento de 40,4% nas contratações temporárias. Nas licenciaturas, o número de concluintes caiu 13,5% entre 2015 e 2024, com uma queda de 52,9% nos cursos presenciais.

O dado que mais me chama a atenção nessa pesquisa, porém, não é apenas o envelhecimento do quadro docente. É o que acontece com os vínculos que sustentam essa profissão. Enquanto diminui a presença de professores jovens e de profissionais concursados, aumentam as contratações temporárias, o que revela uma relação cada vez mais instável com o trabalho. Ao mesmo tempo, a formação de novos professores perde força, especialmente nos cursos presenciais. Quando esses movimentos aparecem juntos, eles deixam de ser números isolados e passam a contar uma história sobre a própria profissão: menos jovens chegando, mais profissionais envelhecendo, menos vínculos estáveis e uma formação que não consegue repor, na mesma proporção, aqueles que vão deixando as salas de aula. É difícil olhar para esse cenário sem pensar também no que ele produz subjetivamente em quem permanece.

Penso em quem está há décadas dentro de uma sala de aula e já viu gerações inteiras passarem por suas mãos. Penso também em quem chega agora e encontra uma profissão que exige formação, estudo permanente, disponibilidade emocional e capacidade de lidar com situações que nem sempre fazem parte daquilo que aprendeu na faculdade. Em muitos momentos, espera-se que o professor ensine, acolha, medie conflitos, compreenda diferenças, acompanhe dificuldades, dialogue com famílias e ainda encontre forças para continuar quando ele próprio está precisando ser ouvido. O professor também tem dores pessoais, mas existe uma expectativa silenciosa de que elas fiquem guardadas para depois. E o depois vai sendo adiado.

Saúde também passa pelos vínculos, pelo pertencimento e pela possibilidade de reconhecer valor naquilo que se faz. Uma pessoa pode estar trabalhando, convivendo e produzindo e, mesmo assim, experimentar um profundo afastamento do mundo ao redor quando sente que sua presença já não importa para os outros.

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