
Durante a pandemia, quando os grupos voluntários não podiam ir presencialmente às instituições de alta complexidade que atendiam, resolvemos criar, no Tio Flávio Cultural, comunidade voluntária da qual participo, um projeto que fazia ligações telefônicas semanais a pessoas idosas que vivem em instituições de longa permanência, as chamadas ILPIs.
A cada semana, o mesmo voluntário ligava para a mesma pessoa idosa, por seis meses. Nesse relacionamento, feito de ouvir histórias, deixar as ideias fluírem e dar tempo para que as lembranças aparecessem, nascia um livro, entregue, ao final daquele ciclo, para aquela pessoa, com as histórias contadas nas ligações, fotos e lembranças que ela tivesse guardado.
O livro levava a foto do nosso assistido e tinha um significado todo especial: tornar imortais as vivências e o aprendizado de uma vida. Era uma ação pensada para pessoas idosas que já não tinham coordenação motora ou autonomia para escrever, mas continuavam carregando muitas histórias que mereciam ser contadas. Esse projeto existe até hoje e chama “Esperançar”.
Precisamos criar, também, outro projeto, de escrita afetiva. Um voluntário comprava dois cadernos. Um ficava com ele e o outro era enviado para uma pessoa idosa que vivia sozinha ou morava em uma instituição. Cada um escrevia histórias do passado e do presente, pensamentos, lembranças e descobertas, numa escrita livre. Depois de algum tempo, os cadernos eram trocados. As pessoas se conheciam a partir das próprias escritas e passavam a trocar cartas, criando proximidade e cuidado mútuo. O “Cadernos da Solidariedade” também está ativo, tendo uma edição a cada ano.
Lembrei de tudo isso por dois motivos. Um deles foi a história que ganhou a mídia nestes dias, a de Bernardo, um adolescente de 14 anos que foi ao cinema, em Ipatinga, Minas Gerais, e viu uma senhora, Carla, tentando comprar um ingresso em uma fila imensa.
Ele explicou que poderia fazer a compra no totem, mas ela não sabia como usar o equipamento. Bernardo ajudou e depois carregou as compras dela até a cadeira do cinema. Ela contou que aquele era o dia do seu aniversário de 62 anos, e ele a abraçou.
Numa entrevista, Carla revelou que está se recuperando de uma doença neurológica que a manteve de cama, usando fraldas, e que agora vai se adaptando à bengala e a uma nova rotina.
Kelly, mãe de Bernardo (e da Bia), disse que aquilo não era um feito extraordinário do filho, porque ele é assim. Carla, por sua vez, resumiu tudo numa frase que ficou comigo: “Eu estava sozinha. Sozinha de tudo (...) melhor presente: ele olhou para mim”.
O que era tão comum no passado, mandar cartas pelos Correios e dedicar tempo e atenção às pessoas, está sendo resgatado por um projeto que parece simples, mas carrega uma delicadeza que faz falta.
O que existe de mais bonito nessas histórias é justamente a simplicidade dos gestos; um menino viu uma mulher que não sabia comprar um ingresso e parou para ajudar; uma jovem escreve cartas para pessoas que não conhece; um voluntário liga durante seis meses para ouvir as histórias de alguém que não consegue mais escrevê-las; duas pessoas trocam suas histórias escritas. Em todos esses casos, algo se destaca: o outro importa. E eu adoro o significado desse termo. Importar significa trazer para dentro de si, reconhecer que aquela pessoa, aquela história, aquela presença tem um lugar em nós.
Carla disse que o melhor presente foi ele ter olhado para ela. Não foi o ingresso, nem as compras, mas o instante em que alguém deixa de ser invisível. Cada uma dessas ações diz: “Eu percebi você”, não para cobrar ou julgar, mas para estar ao lado, ainda que por pouco tempo.