Quando abro o Contracapa, programa em que entrevisto escritoras e escritores mineiros, sempre anuncio que estou recebendo um convidado especial. Pode até parecer uma frase de apresentação, mas é uma convicção minha. Quem escreve nunca leva apenas a ideia de um livro para uma conversa. Leva também lembranças, encontros, perdas, alegrias e tudo aquilo que, de alguma forma, ajudou a construir a pessoa que está por trás da obra.
Por isso gosto tanto dessas entrevistas. Elas podem ter o intuito de falar sobre literatura, mas quase sempre acabam por revelar histórias de vida que ajudam a compreender não apenas o escritor, mas também a nós mesmos. E é raro que eu não me sensibilize com cada um desses encontros.
Foi isso que aconteceu na entrevista desta semana, quando recebi Henrique German. Durante vinte e oito anos, ele atuou no Ministério Público de Minas Gerais. Recebeu uma sólida formação humana da família e teve acesso, ainda criança, a leituras mais densas. Em nenhum momento da entrevista, porém, tive a impressão de estar conversando apenas com um promotor de Justiça ou com um escritor. Via, diante de mim, um homem revisitando a própria história e dando sentido a algumas das mudanças que a vida lhe apresentou.
Não era um texto para ser publicado, mas uma carta escrita por um marido e por um pai que desejava dizer aquilo que, muitas vezes, a correria da vida nos faz adiar: que amava a esposa e os filhos e era grato por tê-los ao seu lado. Somente depois aquela carta encontrou lugar em uma de suas obras.
Enquanto Henrique contava essa história, lembrei-me de uma entrevista que emocionou o Brasil nos últimos dias. Durante a cobertura da festa da padroeira de Recife, a jornalista Bianka Carvalho conversava com uma menina de oito anos chamada Antonella. A criança, do nada (para quem estava de fora assistindo, obviamente), contou que a mãe havia morrido em maio e que a saudade continuava muito grande.
A jornalista percebeu que não havia mais perguntas a fazer sobre o tema que a levara até ali e deixou a menina abrir o coração ao vivo, falar e chorar a dor que sentia. Bianka a abraçou, acolheu e disse algumas palavras exaltando sua coragem. Foi um daqueles momentos em que o jornalismo ressalta que a notícia é importante, mas a pessoa que está diante do microfone é ainda mais.
As duas histórias não têm ligação entre si, mas passaram a fazer sentido juntas dentro de mim. Antonella falava da ausência da mãe. Henrique escrevia sobre a presença da esposa e dos filhos. Em uma história, a dor nascia da falta de alguém que deixou muito amor dentro daquela menina, como ela mesma dizia ao afirmar que a mãe continuava ali com ela. Na outra, a força vinha justamente de quem permanecia ao lado.
Quando a minha entrevista com Henrique terminou, continuei pensando em sua carta. Ela nunca foi escrita para ser publicada. Era um marido tentando dividir seus medos e um pai agradecendo por perceber que não precisaria enfrentar sozinho uma mudança tão profunda na própria vida. Entrei em um carro por aplicativo e fui conversando com o motorista, de 71 anos, carreteiro que hoje dirige para não ficar parado em casa. Falamos que poucas pessoas recebem uma declaração de amor tão sincera quanto aquela. E menos gente ainda decide escrevê-la quando algo tão significativo ainda pode ser lido por quem ainda está por perto.