Tio FlávioPalestrante, professor e criador do movimento voluntário Tio Flávio Cultural.

Chico Xavier também chorou

Publicado em 10/07/2026 às 06:00.


Quando se trabalha com voluntariado, a vida muda por completo. O olhar deixa de se voltar apenas para aquilo que nos acontece e passa a alcançar a dor que atravessa a vida dos outros. A desigualdade social deixa de ser um conceito, o analfabetismo ganha rosto, a falta de oportunidades salta das estatísticas e o desemprego deixa de ser uma notícia distante. O abandono familiar grita à sua porta, as relações humanas ganham novos contornos.

Chegam pedidos dos mais diversos tipos. Uma mãe procurando orientação para internar um filho dependente de álcool ou outras drogas; um lar de idosos precisando de fraldas geriátricas para os seus moradores; um vizinho que necessita de uma cadeira de rodas; uma família que não tem como se alimentar naquele dia; um agasalho que o pai pede para aquecer os filhos. Cada pedido parece pequeno quando visto isoladamente, mas, reunidos, formam um conjunto de elos.

Quem observa de longe costuma chamar os voluntários de guerreiros. Enxerga as campanhas, a luta por doações, as publicações nas redes sociais. Quem convive de perto sabe que são apenas pessoas que também têm contas para pagar, preocupações familiares, inseguranças, cansaços e dias em que a vontade de seguir em frente parece menor do que a fila de demandas que não param de chegar.

Nas redes sociais, há quem incentive, há quem critique e há quem transforme qualquer gesto em motivo para condenação. Até aquilo que poderia despertar apenas ternura acaba encontrando resistência. Também existem os que descobrem na solidariedade um caminho para conquistar visibilidade. Alguns registram um gesto simples porque acreditam que isso pode inspirar outras pessoas a fazerem o mesmo, mas há outros que filmam apenas para construir uma narrativa capaz de render curtidas e engajamento. A mesma imagem pode esconder intenções completamente diferentes, e nem sempre é possível distingui-las.

Com tudo isso, confesso que, nos últimos dias, me senti cansado. Não era apenas o cansaço físico, mas aquele desgaste sistemático de ver que os problemas chegam de todos os lados, enquanto a sensação de que o trabalho não sai do lugar insiste em aparecer. Sei que Saramago escreveu que é preciso sair da ilha para ver a ilha. Talvez eu estivesse precisando afastar-me um pouco para reencontrar o sentido daquilo que faço.

Um dia, dentro do ônibus, indo para a cidade mineira de São Joaquim de Bicas, pedi a Deus algum sinal, esperando que, ao fim da viagem de quase duas horas, algo viesse como luz para me guiar. 

Cheguei ao presídio para mais uma atividade voluntária, sentei-me diante do diretor, Denivaldo, e comecei a falar. Contei do desânimo, da vontade de dar um tempo em algumas atividades, das decepções acumuladas ao longo do caminho. Enquanto isso, ele aproximou a sua cadeira do computador e parecia procurar alguma coisa na tela, sem interromper meu desabafo. 

Foi quando ele pediu que escutássemos uma música. Angelita, do Conselho da Comunidade de Igarapé, reconheceu imediatamente a voz de Moacyr Franco. Era "Uma Lágrima no Rio", canção que narra o encontro de um homem com um senhor ajoelhado à margem do Rio Tijuco, em Uberaba. 

Comovido pelo choro daquele desconhecido, o homem procura compreender a razão de tanta tristeza. Aos poucos, descobre que está diante de alguém profundamente ferido pela sensação de ter dedicado a vida inteira ao bem, ao amor e à esperança, mas que agora contempla um mundo onde a violência, a mentira e a indiferença parecem ter sufocado tudo aquilo que um dia acreditou semear.

O homem, para consolar aquele senhor, diz que ele poderia procurar alguém, dali mesmo, que o ajudaria a ter paz. Ele falava do médium Chico Xavier, ao que o senhor respondeu: “Agradeço seu conselho, mas de nada me valeu, aumentou meu desespero. Chico Xavier sou eu”, disse o senhor àquele homem.

Chico também deve ter sofrido ao perceber que o amor, por si só, não impede que o mundo continue produzindo dor. A música revela que até as pessoas mais admiradas por sua bondade podem experimentar o desencanto. Nem mesmo quem construiu a própria existência servindo aos outros está imune à impressão de que o esforço realizado nunca é suficiente. A música desenha Chico como um ser humano, que também teve que lidar com suas próprias dúvidas e dores.

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