Tio FlávioPalestrante, professor e criador do movimento voluntário Tio Flávio Cultural.

De que adianta ter uma vaca no céu?

Publicado em 12/06/2026 às 06:00.


Outro dia encontrei um provérbio africano que ficou me acompanhando durante dias: “Tenho uma vaca no céu, mas não consigo beber o leite dela”. Gostei dele imediatamente porque, apesar da simplicidade, parece descrever com precisão um sentimento muito presente na vida contemporânea. A imagem é curiosa, pois a pessoa possui algo valioso: a vaca existe, o leite também. O problema é que aquilo que deveria alimentar a vida permanece distante, inacessível, fora do alcance das mãos.

Pensei nisso ao ler uma reflexão do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han sobre a sesta, aquele descanso depois do almoço tão comum em algumas culturas. Para ele, parar durante o dia não é um sinal de preguiça, mas uma forma de resistência diante de uma sociedade que nos convenceu de que precisamos ser produtivos o tempo inteiro. A ideia parece estranha porque fomos educados para admirar quem nunca para, quem responde a mensagens a qualquer hora, quem transforma cada minuto em oportunidade de trabalho, de crescimento ou de desempenho. Os que não fazem algo assim são até chamados de “sem visão”.

O curioso é que, ao mesmo tempo em que a humanidade acumulou tantos recursos, tantas facilidades e tantas formas de conforto, nunca pareceu tão difícil usufruir deles. É como se estivéssemos cercados por vacas no céu.

Muita gente trabalha durante anos para comprar uma casa melhor e, quando finalmente consegue, descobre que a conquista não produz a tranquilidade que imaginava. A casa está lá, bonita, organizada, conquistada com esforço. O problema não é passar o dia fora dela, mas não encontrar tempo para desfrutar plenamente do conforto que oferece. E, mesmo quando surge a oportunidade de descansar e aproveitar aquilo que foi alcançado, permanece uma inquietação difícil de explicar. Algo continua a perturbar, como se a paz esperada estivesse sempre um pouco adiante, em algum lugar que não se consegue identificar.

Há quem sonhe a vida inteira com a aposentadoria ou com as férias e, quando esses momentos chegam, descobre que desaprendeu a descansar. O corpo está em um lugar, mas a mente continua correndo. O celular vibra, as notificações chegam, as preocupações acompanham a viagem. Em vez de desfrutar a pausa, a pessoa sente a necessidade de continuar ocupada. Parece que o descanso passou a exigir justificativas.

Byung-Chul Han observa que uma das marcas do nosso tempo é a exploração voluntária. Não precisamos mais de alguém nos vigiando constantemente para nos cobrar produtividade. Muitas vezes somos nós mesmos que assumimos esse papel. Levamos trabalho para casa, transformamos lazer em desempenho, medimos resultados o tempo todo e sentimos culpa quando simplesmente não estamos fazendo nada. A cobrança externa continua existindo, mas a interna frequentemente é ainda mais severa.

As redes sociais ampliaram esse fenômeno. Nunca foi tão fácil acompanhar a vida dos outros e comparar trajetórias. Enquanto alguém exibe viagens, outro mostra certificados, outro compartilha exercícios físicos, outro apresenta projetos, conquistas e metas alcançadas. Aos poucos, instala-se a sensação de que todos estão avançando e de que parar representa um risco. O resultado é uma corrida permanente que raramente permite apreciar o caminho percorrido.

Por isso, a reflexão sobre a sesta é mais profunda do que parece. Ela não fala apenas de um cochilo depois do almoço. Fala da capacidade de interromper o movimento incessante para recuperar algo essencial. Ressalta o direito de existir sem transformar cada instante em produção. Alerta para a possibilidade de criar espaços vazios em uma agenda cheia demais. E esses vazios são importantes porque é neles que surgem as conversas sem pressa, as ideias que amadurecem devagar, os afetos que não cabem em cronogramas e os pensamentos que precisam de silêncio para nascer.

Acumular não é o mesmo que desfrutar. Conquistar não é o mesmo que experimentar. Em uma época que nos ensina a correr, existe sabedoria em aprender a permanecer. Porque a vida não acontece apenas na busca pelo leite e, ao conquistá-lo, sair em busca de cada vez mais, armazenando para um dia de falta. Ela também acontece no instante em que finalmente nos sentamos para saboreá-lo.

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