
Outro dia, no estacionamento de um supermercado, vi uma senhora que deixou cair uma sacola pesada no chão. Um pacote rasgou, frutas e verduras rolaram para debaixo dos carros e ela, com os braços ocupados com outros itens, ficou desconcertada. Antes de mais nada, três pessoas se abaixaram para ajudar a juntar tudo. A vida coletiva anda tão desgastada que pequenos gestos começam a chamar atenção como se fossem raridade. Alguns até nos emocionam e são compartilhados com sucesso em redes sociais. O problema talvez esteja exatamente aí: o que deveria ser comum passou a parecer extraordinário.
Dou muitas palestras. Converso com adolescentes, educadores, idosos, gente de áreas muito diferentes. Em quase todos os encontros aparece a mesma sensação: as pessoas estão cansadas umas das outras. Cansadas da agressividade, da disputa permanente, da necessidade de ter razão o tempo inteiro. Em muitos ambientes, escutar virou artigo de luxo, apesar de ser de primeira necessidade.
Convivência exige uma habilidade cada vez mais rara, que é a capacidade de fazer autocrítica sem transformar isso em autopunição. Você já parou para pensar que o errado, em alguns contextos, pode ser você mesmo e que isso pode representar uma possibilidade de ajuste de rota?
Não precisamos daquela culpa exagerada que destrói a autoestima, mas da capacidade honesta de perceber o próprio impacto sobre os outros. Tem gente que passa anos sem pedir desculpas; outros são incapazes de admitir um erro simples; uns morrem sem ter dito ou ouvido um “eu te amo”; e há quem transforme qualquer divergência numa batalha moral. Aos poucos, esse comportamento vai endurecendo a pessoa por dentro e dificultando qualquer possibilidade de convivência mais generosa.
Lembro de uma conversa numa unidade prisional onde fui fazer uma atividade de leitura. Um dos homens comentou que passou muito tempo culpando a família, os amigos, o bairro, a polícia e o destino, até perceber que nunca havia se colocado verdadeiramente dentro da própria história. Aquela fala ficou ecoando em mim porque autocrítica não é humilhação, mas responsabilidade sobre aquilo que fazemos com a própria vida e o impacto causado na vida dos outros.
O cérebro humano presta mais atenção ao perigo do que ao que está funcionando bem. Talvez por isso tanta gente atravesse o dia sem perceber os pequenos acontecimentos que sustentam emocionalmente a vida: uma conversa sincera, um café compartilhado, alguém perguntando se você chegou bem em casa, um aluno que volta anos depois para dizer que uma palavra o ajudou num momento difícil.
Tem uma canção do Gonzaguinha que diz: “eu vou no bloco dessa mocidade, que não tá na saudade e constrói a manhã desejada”. Sempre achei esse verso profundamente humano porque ele fala menos de nostalgia e mais da responsabilidade de construir alguma coisa melhor no presente. Existe uma parte da vida que depende das estruturas sociais, da política, da economia, das oportunidades. Mas existe outra parte construída diariamente nas relações mais comuns.
Uma sociedade vai ficando parecida com o somatório daquilo que cada pessoa pratica no cotidiano.