Tio FlávioPalestrante, professor e criador do movimento voluntário Tio Flávio Cultural.

Ela só queria ser ouvida

Publicado em 27/03/2026 às 06:00.


Dona Ivone me disse certa vez que havia envelhecido. Falou isso com uma serenidade curiosa, como quem descreve algo corriqueiro, da mesma forma que se fala da chuva que chega depois de um dia quente. O que mais a chateava, no entanto, não era o corpo cansado nem as limitações que o tempo trouxe. O que mais doía, segundo ela, era a impaciência dirigida a ela dentro de casa.

Contava que os filhos já não tinham disposição para ouvir. Quando ela chamava, respondiam de longe, levantando a voz do outro cômodo, como se a distância fosse suficiente para resolver a conversa. Muitas vezes falavam com ela enquanto olhavam para o telefone, com os olhos presos à tela e a atenção dividida. Aquilo a deixava com a sensação de que sua presença era apenas um ruído ao redor da rotina deles.

E não eram filhos novinhos, como ela fazia questão de me contar. Já eram adultos, gente que tinha atravessado alegrias e dificuldades, pessoas que conheciam bastante da vida. Mesmo assim, pareciam ter desaprendido algo muito simples, que não exige estudo nem técnica, apenas disposição de permanecer diante do outro por alguns minutos.

Dona Ivone não falava com amargura. Seu jeito era mais próximo daquele modo mineiro de lidar com o sofrimento, guardando a queixa dentro de um tom calmo, quase como quem conta um fato da vida sem esperar julgamento de ninguém. A fala vinha acompanhada de um olhar tranquilo, embora por trás dele fosse possível perceber a saudade de quando a casa era cheia de conversas demoradas e de quando sua palavra ainda tinha lugar na mesa.

Com o passar do tempo ela foi ficando mais dependente. Precisou de ajuda para se locomover, para tomar banho, para alcançar objetos simples. Coisas que durante décadas fizeram parte do cotidiano começaram a exigir a presença de outra pessoa. 

Foi então que os filhos tomaram, por conta própria e sem consultá-la, a decisão de levá-la para um lar de idosos. Ela contou que no começo não gostou da ideia. Sentiu o peso da mudança, o estranhamento de um lugar novo, com rotinas diferentes e rostos que ainda não tinham história em comum. A sensação de deslocamento demorou um pouco a se acomodar dentro dela. 

Dona Ivone respirou fundo e resumiu tudo com uma frase que parecia carregar muitas décadas de experiência: na vida a gente acaba se acostumando, porque quando não se acostuma o desgosto vai consumindo por dentro.

No lar, ela passou a observar as outras pessoas com a mesma atenção com que antes cuidava da própria casa. Reparei que falava dos funcionários com respeito, reconhecendo o esforço de quem precisa cuidar de muitos ao mesmo tempo. Mesmo assim havia algo que ainda a entristecia de um jeito silencioso.

Em casa e agora, ali, ela já usava fralda. E surgiam momentos em que aparecia aquela vontade simples de ir ao banheiro, levantar devagar, caminhar alguns passos e resolver algo que durante toda a vida foi natural. Nem sempre era possível. Em algumas ocasiões alguém aconselhava, com o tom prático de quem precisa dar conta de muitas tarefas, que ela urinasse na fralda mesmo, pois depois a fralda seria trocada.

Dona Ivone contou isso sem levantar a voz, como quem não quer transformar a própria dor em acusação. O que aparecia em seu relato era mais uma espécie de cansaço do que revolta. A velhice pode reduzir a força das pernas e exigir ajuda para muitos gestos, mas não altera o modo como alguém se percebe por dentro.

Por trás das limitações permanece uma história inteira feita de escolhas, afetos, erros e conquistas. Quem envelhece com autonomia continua sabendo quem é e carrega dentro de si a memória do que viveu e do que construiu ao longo da vida. 

São lembranças de trabalho, de cuidado com os filhos, de decisões difíceis e de alegrias simples que ajudaram a formar o caminho percorrido. Nada disso desaparece com a chegada da velhice. 

A pessoa que envelhece continua sendo alguém com história, com dignidade e com consciência de si, e não uma “doninha” que mereça um tratamento infantilizado ou que a reduza à inutilidade, pois esse tipo de atitude acaba apagando simbolicamente uma vida inteira de experiências e escolhas.

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