Tio FlávioPalestrante, professor e criador do movimento voluntário Tio Flávio Cultural.

Espere, minha mãe, que estou voltando

Publicado em 17/04/2026 às 06:00.


Outro dia eu estava ouvindo um show de João Gomes com a participação de Vaqueirinho cantando a música Fogão de Lenha, canção que ficou eternizada na voz de Chitãozinho & Xororó. Bastaram os primeiros acordes para que alguma coisa muito antiga se mexesse dentro de mim e trouxesse uma saudade grande do tempo em que a vida parecia mais simples, quando eu ainda morava com minha mãe e tinha todos os dias a segurança silenciosa do seu abraço, aquele tipo de carinho que a gente só percebe o tamanho quando já não está mais ali com a mesma frequência de antes.

A música fala de um movimento que atravessa gerações e que quase toda família conhece bem, que é o momento em que os filhos saem de casa para procurar um caminho próprio, muitas vezes com a promessa de voltar logo, embora a vida nem sempre siga os planos que imaginamos quando fechamos a porta e pegamos a estrada. 

Quem parte leva na mala algumas roupas e muitos sonhos, mas leva também lembranças aparentemente pequenas que acabam se tornando grandes companheiras de viagem, como o cheiro do café sendo passado no bule, o calor do fogão de lenha aceso, cheio de panelas borbulhando com comida boa ou aquela rede preguiçosa na varanda que balançava devagar, num tempo em que o tempo ainda não nos engolia.

Com o passar dos anos a gente vai entendendo que sair de casa não significa cortar os vínculos, porque o coração costuma permanecer um pouco com quem ficou, como se uma parte da gente continuasse sentada à mesa da cozinha enquanto outra parte tenta descobrir o mundo lá fora. 

Em muitas histórias os filhos vão e voltam, aparecem de surpresa em algum feriado, entram pela porta como se nunca tivessem saído e encontram no mesmo lugar o afeto que sempre esteve ali esperando. Em outras histórias os filhos vão e acabam não voltando com a frequência que imaginavam, não por falta de amor, mas porque o tempo se enche de responsabilidades, distâncias e compromissos que parecem inevitáveis.

Existem também aqueles que se perdem no caminho, gente que saiu com esperança no bolso e acabou se desencontrando de si mesma no meio da travessia, situação que torna a ideia de voltar muito mais complexa, pois nesse caso não se trata apenas de reencontrar uma casa antiga, mas de reencontrar aquilo que se era antes das pressões e das urgências da vida adulta. 

Há ainda um outro tipo de distância, mais silenciosa e por vezes mais dolorosa, que acontece quando os laços se rompem ao longo do tempo e as relações vão sendo interrompidas até perderem continuidade. A casa continua no mesmo lugar, as paredes seguem de pé e a porta ainda existe, mas os vínculos que davam sentido ao retorno já não estão ali da mesma forma. Nesses casos, não é a ausência da casa que impede a volta, e sim a quebra das ligações afetivas que um dia fizeram daquele lugar um verdadeiro lar.

Tem um provérbio africano que diz que, se alguém não sabe para onde vai, precisa olhar para trás e entender de onde veio, frase que não sugere viver preso ao passado, mas reconhecer que nossas raízes continuam sustentando os passos que damos hoje. Saber de onde viemos nos ajuda a não nos perder completamente quando a vida aperta, quando surge uma dor inesperada ou quando um fracasso parece maior do que nossas forças, momentos em que faz uma enorme diferença ter um porto seguro, um lugar onde possamos chegar sem precisar explicar demais e onde um abraço supostamente simples consegue reorganizar a alma.

Curiosamente, esse mesmo lugar também se torna ainda mais bonito quando a vida sorri, porque as vitórias ficam maiores quando existe alguém para compartilhar a alegria, alguém que se alegra de verdade e que celebra, entendendo que cada conquista também é um pouco sua. 

Quando o verso pede para a mãe esperar porque o filho está voltando e confessa a falta que faz um beijo seu, ele não fala apenas de distância geográfica, mas da necessidade profundamente humana de reencontrar aquilo que nos lembra quem somos. Voltar para casa, muitas vezes, é apenas outra maneira de dizer que estamos tentando voltar para nós mesmos.

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