Tio FlávioPalestrante, professor e criador do movimento voluntário Tio Flávio Cultural.

Gerson e a carta que ainda não entendemos!

Publicado em 19/12/2025 às 06:00.

Ninguém desejaria precisar escrever uma carta como aquela, feita pelas mãos de um adolescente que revelava tanta carência e tanta gratidão ao mesmo tempo. Uma carta escrita por um jovem que nunca teve a chance de viver o que escreveu, um pedido tão simples e tão humano que rasga qualquer argumento de culpa e castigo antes de começar. Em linhas trêmulas, escritas a lápis, de um coração que buscava carinho, amor e um futuro, havia mais verdade do que muitos de nós jamais conseguimos usar em nossas próprias palavras. 

O nome dele era Gerson de Melo Machado, tinha 19 anos e uma história marcada por lacunas de cuidado e acolhimento que o acompanharam desde a infância. O texto que escreveu, batizado pela professora com o título de “Desejo do coração”, não pedia riqueza, sucesso imediato ou objetos de consumo. Ele pedia algo que muitos de nós damos como certo: visita da mãe para ter carinho e amor. 

O contexto em que aquele pedido foi feito é, por si só, um espelho de descaso. A carta foi fruto de uma atividade num Centro de Educação de Adolescente de João Pessoa, no último Natal, quando ele ainda era menor, em um momento de privação de liberdade. E mesmo entre paredes e grades, ele ainda conseguiu olhar para o mundo e desejar um lugar nele, um sentido que transcende a própria situação em que estava. 

O que hoje nos causa comoção foi, no passado recente, apenas mais um caso entre tantos outros que a sociedade prefere ignorar. Gerson cresceu no bairro de Mangabeira, filho de uma mãe e de avós que também tinham esquizofrenia, condição que marcaria toda a sua trajetória. 

A família foi fragilizada por essas condições, e quando a mãe perdeu legalmente a guarda dele e dos outros quatro irmãos, eles foram adotados. Todos, menos Gerson. A razão, segundo relatos, foi um laudo de saúde mental emitido ainda na infância que o estigmatizou diante de possíveis adotantes. 

Essa foi talvez a primeira de muitas portas que se fecharam para ele. Ao longo da vida, ele teve dezenas de passagens pela polícia, principalmente por furtos e danos ao patrimônio. Nada que indicasse perigo sério a outras pessoas, mas o suficiente para instituir um padrão de punição sem cuidado, uma relação com o sistema que valorizava mais o castigo do que a atenção ao sofrimento. 

Relatos policiais mencionaram que em várias vezes em que foi detido, ele recebia café, conversava com os agentes e repetia seus sonhos: ir para a África, trabalhar com animais, viver algo grandioso que ele sentia que nunca lhe foi dado. 

É nesse cenário que aquela carta de Natal ganha dimensão e dor. Ele escreveu sobre querer “uma grande felicidade que nunca teve”, e citou que gostava de quem o ajudava no centro onde estava internado, agradecendo pela presença de professores e profissionais que o acolheram. Ele sonhava em ser policial florestal ou veterinário, profissões ligadas à proteção e ao cuidado, talvez imagens simbólicas do que ele próprio ansiava ser ou receber. 

E então veio o que ninguém queria prever nem imaginar: numa manhã de fim de novembro, Gerson escalou muro de mais de seis metros, atravessou a segurança e desceu por uma árvore até o recinto de uma leoa no Parque Zoobotânico Arruda Câmara, em João Pessoa. O ato foi filmado por visitantes, horrorizados ao verem o desfecho trágico daquela aventura solitária. A leoa, chamada Leona, reagiu ao intruso como qualquer animal faria, e a vida de Gerson terminou ali, em poucos segundos. 

A imprensa noticiou o fato como um episódio incomum, uma fatalidade quase surreal. Mas para quem olhou de perto, especialmente sua conselheira tutelar, a morte foi uma conclusão anunciada de um longo descuido coletivo. Ela o acompanhou dos 10 aos 18 anos e viu, várias vezes, as janelas de oportunidade se fecharem diante dele. Viu pedidos de internação psiquiátrica não serem apreciados, viu procedimentos que poderiam proteger sua vida serem protelados, viu um jovem tratado mais como problema do que como pessoa. 

O episódio chocou as redes sociais e reacendeu um debate mais profundo: até que ponto a sociedade reconhece e integra aqueles que mais precisam de apoio? Até que ponto rotulamos sofrimento como desvio moral, quando muitas vezes é sofrimento simplesmente? Gerson nunca foi apenas um número de ocorrências policiais. Ele foi uma criança que sonhava, um adolescente que buscava afeto e um jovem que desejava ser amado e útil ao mundo. Sua carta de Natal foi um pedido de humanidade, não um manifesto de rebeldia ou desespero. 

Entre aqueles que o conheceram havia quem dissesse que ele tinha a linguagem e o afeto de alguém com capacidade de dar mais do que receber, alguém que absorvia carinho e distribuía o que tinha, mesmo que fosse pouco. Especialistas em assistência social que o viram em diferentes contextos relataram uma fragilidade emocional e cognitiva que, se reconhecida em outros contextos de maior privilégio, teria recebido suporte adequado. 

Ler a carta hoje é confrontar a própria consciência. Há algo doloroso em ver um pedido de amor, de presença, de alegria, ser revelado apenas depois que a pessoa já não pode mais experimentá-lo. Ele falou de futuro e possibilidades, e foi tragado por um sistema que tem dificuldades em transformar potencial em realidade. 

A morte de Gerson deveria nos lembrar que cada vida que parece perdida, marginal, problemática ou difícil carrega em si um universo de desejos, muitos dos quais simples e legítimos. Ele não pediu um carro ou riqueza, pediu felicidade, amor sincero e uma chance de ser alguém que cuidasse de outros. Pode haver ironia trágica nisso, mas também há uma lição clara: cuidado e amor deveriam ser mais acessíveis do que jamais foram. 

A carta permanece como um testemunho silencioso do que poderia ter sido. Ela nos persegue porque nos confronta com nossa própria capacidade de olhar para o outro e reconhecer sua dignidade antes que seja tarde demais. Talvez o maior pedido de Gerson fosse justamente esse: não jogar ninguém na “cova dos leões”, nem literal nem metaforicamente, mas olhar para o outro com olhos de compaixão e inclusão. Claro, aqui está o final refeito, completando a ideia com fluidez e força emocional:

A carta do Gerson chegou tarde para ele. Ao terminar a leitura, sentimos o peso de uma verdade incômoda: faltou a ele o que nós, coletivamente, não soubemos oferecer. Que esta carta seja, então, para nós, não uma lembrança triste, mas um chamado urgente à responsabilidade, para que nenhuma outra infância precise pedir, em silêncio, aquilo que deveria ser direito.

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