Tio FlávioPalestrante, professor e criador do movimento voluntário Tio Flávio Cultural.

Ignorar dói menos?

Publicado em 27/02/2026 às 16:10.

Outro dia ouvi alguém dizer, com uma convicção quase invejável, que é melhor ser ignorante, porque assim a gente sofre menos. A frase veio acompanhada de um suspiro cansado, como quem já viu demais, já sentiu demais, já se decepcionou além da conta. É interessante que, durante as minhas palestras, uso uma frase de Dona Ivone Lara para falar justamente sobre a busca do conhecimento, que nos absolve de algumas dúvidas e nos presenteia com outras. Ainda assim, fiquei pensando no que está por trás dessa ideia tão repetida nos corredores da vida adulta, nas conversas de trabalho e nas redes sociais, onde o excesso de informação parece pesar sobre os ombros como uma mochila cheia de pedras.

Existe um tipo de cansaço que nasce da lucidez. Quando a gente entende minimamente como funcionam as estruturas de poder, as desigualdades sociais, as manipulações políticas e até os jogos emocionais dentro de casa, perde o direito à ingenuidade confortável. Quem enxerga começa a perceber as entrelinhas de uma notícia, a pausa estranha em uma conversa, a exclusão disfarçada de brincadeira no ambiente de trabalho. E perceber, muitas vezes, dói.

Basta lembrar da sensação de descobrir que alguém de quem tínhamos boa impressão não era exatamente aquilo que imaginávamos. Antes da descoberta, vivíamos em relativa tranquilidade. Depois dela, tudo se reorganiza por dentro. A ignorância protegia uma imagem, o conhecimento desmonta a fantasia. Nesse momento, surge a tentação de pensar que teria sido melhor não saber. Mas há coisas que, mesmo dolorosas, é preciso saber.

É curioso imaginar que o ignorante não sofre. Sofre, sim, e possivelmente sofre mais, porque não entende o que está acontecendo e, sem compreender, não tem possibilidade de agir e nem de se antecipar aos fatos. É o estudante que não se informa sobre a prova e depois se desespera com a nota baixa. É o trabalhador que não busca compreender seus direitos e aceita condições injustas como se fossem naturais. É a pessoa que reproduz preconceitos sem jamais ter refletido sobre eles e, por isso, coleciona conflitos e afastamentos sem perceber que é parte do problema.

A ignorância não é ausência de sofrimento. Ela apenas muda o tipo de dor. Quem ignora pode até não sofrer pelo que não sabe, mas sofre pelas consequências do que não compreende. Sofre nas escolhas mal feitas, nas relações mal conduzidas, nos preconceitos que afastam pessoas, nas oportunidades perdidas. Sofre, muitas vezes, sem entender por quê. Sofre, mas não compreende as causas do próprio sofrimento, e isso o aprisiona em ciclos que se repetem.

O conhecimento, por sua vez, amplia a consciência e, com ela, a responsabilidade. Quando entendemos que determinadas falas são violentas, já não conseguimos rir delas como antes. Quando percebemos que certa atitude nossa machucou alguém, não podemos mais fingir que não sabíamos. A lucidez nos convoca a agir de maneira diferente, e agir de maneira diferente exige esforço, revisão de postura, às vezes até pedir perdão e mudar mentalidade e comportamento. Não é leve, sei bem disso.

Penso na canção “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré, quando ele canta que “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. O verso atravessou décadas como um chamado à responsabilidade e à consciência. Ele nos lembra que compreender a realidade implica posicionar-se diante dela, ainda que isso traga desconforto e risco. Ignorar pode parecer mais simples, mas não constrói caminho.

Também lembro de “Comida”, dos Titãs, quando dizem que “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. O verso revela uma verdade simples: viver com profundidade implica sentir, refletir, questionar.

Existem pessoas que escolhem não saber, e isso pode até reduzir algumas inquietações, mas também reduz a própria experiência humana. Ficam protegidas de certas dores, mas igualmente distantes de alegrias mais complexas e conscientes.

Em minhas conversas com jovens do ensino médio, percebo que muitos se assustam quando começam a compreender as exigências do mercado de trabalho, as desigualdades de oportunidade e os desafios de construir uma trajetória com sentido. Alguns dizem que era mais fácil quando não pensavam nisso. Era mesmo. A infância, em muitos aspectos, é território da ignorância protegida, ou deveria ser. No entanto, crescer implica ampliar a visão e assumir as rédeas do próprio caminho, ainda que isso traga insegurança.

Entre pessoas com mais de sessenta anos, encontro outro movimento interessante. Muitos relatam que sofreram menos quando não questionavam certas estruturas familiares ou profissionais, mas reconhecem que pagaram um preço alto por esse silêncio. A falta de informação sobre saúde, direitos e possibilidades os manteve por anos em uma certa dependência que hoje não aceitariam. A ignorância não os poupou da dor, apenas adiou decisões que poderiam ter sido transformadoras.

A frase de que é melhor ser ignorante para não sofrer soa sedutora porque promete anestesia. O mundo já é duro demais, as notícias são pesadas, as relações exigem maturidade. A ideia de fechar os olhos parece um descanso. O problema é que a vida não deixa de acontecer só porque decidimos não olhar. As consequências continuam vindo, as escolhas continuam produzindo efeitos, as omissões continuam gerando impacto.

Saber pode doer, mas também liberta. Quando compreendemos nossos limites, podemos buscar ajuda. Quando reconhecemos um preconceito em nós, temos a chance de desconstruí-lo. Quando entendemos como funcionam certas armadilhas emocionais, deixamos de cair nelas com tanta facilidade. A dor do conhecimento é ativa, provoca movimento. A dor da ignorância tende a ser passiva, repetitiva, quase resignada.

O sofrimento faz parte da condição humana. A escolha real está entre sofrer sem entender ou sofrer com consciência suficiente para transformar a própria história. Entre a anestesia que entorpece e a lucidez que inquieta, prefiro a segunda, porque ela amplia horizontes e nos permite caminhar com mais autonomia, mesmo que o caminho não seja sempre suave.

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