
Num dia desses, a jornalista Carina Pereira gravou um vídeo simples que me chamou a atenção, de início, pela espontaneidade com que começou a falar. Não havia música emocionante, imagens impactantes nem qualquer recurso pensado para provocar lágrimas, mas eu não imaginava que aquelas falas me deixariam pensando em tantas coisas por tantos dias.
Ela contava sobre uma conversa que teve com sua terapeuta depois de realizar um procedimento médico. Confessou que havia sentido medo de morrer durante o exame. A terapeuta ouviu e devolveu uma pergunta que, desde então, ficou martelando na minha cabeça: "Você tem medo de morrer ou tem medo de viver?".
A diferença entre uma coisa e outra parece pequena, mas talvez esteja aí uma das maiores armadilhas da existência. O medo de morrer é inevitável, faz parte da nossa condição. Não conheço ninguém que, diante da possibilidade concreta da morte, consiga permanecer completamente indiferente. O curioso é que passamos muito menos tempo pensando no medo de viver, embora seja ele quem, silenciosamente, ocupe boa parte dos nossos dias.
Anos atrás, sobrevivi a um acidente de ônibus que deixou vítimas fatais. Dois dias depois, precisei cumprir uma agenda de 18 cidades por Minas Gerais, em um projeto do Sesc. Viajei porque era preciso, mas durante muito tempo qualquer freada mais brusca, qualquer ruído inesperado ou movimento diferente fazia meu corpo acreditar que tudo estava prestes a acontecer de novo. Eu conheci um medo legítimo, concreto, daqueles que têm causa, data e memória. Nunca, porém, havia parado para perceber quantas escolhas da minha vida eram guiadas por outro medo, muito mais discreto e, por isso mesmo, mais difícil de reconhecer.
Curiosamente, a vida resolveu insistir nesse assunto ao longo desta semana. Entrevistei a escritora Clara Amorim, que falava da morte do pai e de como essa perda encontrou um lugar definitivo em sua escrita. Horas depois, conversei informalmente com o jornalista Fabiano Frade, que ainda tentava dar nome ao vazio deixado pela perda recente do pai. No dia seguinte, recebi a notícia da morte do Beto Donizete, um amigo que conheci por meio das Apacs e por quem sempre cultivei enorme respeito. Não era uma sequência de coincidências; era apenas a vida lembrando que a morte nunca deixa de caminhar ao nosso lado, ainda que façamos um esforço enorme para ignorar sua presença.
A vida atravessa a morte assim como a morte atravessa a vida. Elas não precisam ser opostas, mas devem conviver de forma amigável, como se uma desse contorno à outra. Vive-se sabendo que se vai morrer, embora a gente evite pensar e falar sobre isso. Se a consciência da despedida ocupasse cada manhã, viveríamos apenas a expectativa da perda, mesmo que ela não chegasse naquele dia. É justamente esse aparente esquecimento, ou um respeitável desprezo, que permite fazer planos, aceitar convites, comprar uma passagem para o próximo ano ou simplesmente imaginar que a semana seguinte já nos pertence. Isso não nos desobriga, porém, de prestar atenção à vida que vai acontecendo entre um plano e outro. É preciso estar atento e forte também, entendendo que o esquecimento da vida, esse sim, cobra um preço alto.
Foi por isso que a pergunta da terapeuta da Carina me pareceu maior do que uma conversa sobre a morte. Ela desloca o olhar para aquilo que fazemos enquanto estamos vivos. Não para as grandes decisões, mas para os pequenos recuos cotidianos, para as opiniões que engolimos, os afetos que adiamos, as experiências que recusamos, os riscos que nunca corremos porque alguém poderia desaprovar. No fim das contas, talvez a morte não seja a grande questão filosófica da vida. A questão deveria ser o foco na vida: o que estamos fazendo com ela enquanto ela acontece.