Tio FlávioPalestrante, professor e criador do movimento voluntário Tio Flávio Cultural.

Não é apenas sobre parar o carro em local proibido

Publicado em 20/02/2026 às 07:00.

Um dia eu vi uma postagem da jornalista Larissa Carvalho que falava sobre a dificuldade de estacionar seu carro na rua e em shoppings, nas vagas asseguradas a pessoas com deficiência, já que outros carros, sem a credencial que identifique o veículo, estacionam e os donos descem sem o menor pudor. Em alguns casos as pessoas podem dizer que foi uma urgência, que seria rapidinho, que não fizeram por mal. Mas nenhuma dessas falas é justificável.

Larissa mostra a rotina com o filho Theo, que nasceu com uma doença rara e hoje tem movimentos e fala limitados. Para que ele consiga se deslocar, ela precisa abrir a rampa acoplada ao carro, posicionar corretamente a cadeira e garantir um espaço mínimo para a descida. Aquela vaga não é comodidade, é necessidade objetiva. A rampa é grande, exige área livre, tempo e segurança, e, sem isso, o percurso mais simples se transforma em obstáculo concreto. Inclusive, há dois pontos que Larissa sempre lembra e que ressalto aqui: a faixa zebrada que compõe as vagas para pessoas com deficiência não é para parar moto nem para deixar carrinho de supermercado; é um espaço necessário para o manuseio da cadeira. E a pessoa com credencial de idoso não deve estacionar em vaga destinada a pessoas com deficiência. As vagas e as necessidades são diferentes e cada uma tem seu espaço específico.

A cena se repete em diferentes lugares da cidade. Carros estacionados sobre rampas de acesso às calçadas, sobre faixas de pedestres, em vagas exclusivas. Quando alguém questiona, surgem justificativas automáticas, quase sempre embaladas pela pressa e pelo individualismo. Em situações ainda mais graves, aparecem as ofensas, como se a cadeira de rodas fosse escolha, como se aquele corpo não fosse um corpo inteiro, como se a limitação autorizasse o desrespeito. Há quem diga: “a cadeira não tem rodas? Então, que preguiça é essa?”, como se elas também pudessem sobrevoar.

Recentemente, um caso em Belo Horizonte trouxe à superfície uma prática que, embora recorrente, ainda é tratada como episódio isolado. Um homem, cadeirante, identificado como Pedro, se deslocava com a esposa e a cuidadora em direção a um restaurante quando encontrou um carro estacionado exatamente em frente à rampa de acesso. O proprietário do veículo estava em um bar próximo. Ao ser abordado, retirou o carro, mas fez questão de zombar: “Tchau, cadeirante! Espero que você ande muito por aí”. Horas depois, voltou ao local, entrou no restaurante do casal e repetiu a agressão: “E aí, ele voltou a andar?”.

O caso foi registrado por câmeras, houve testemunhas e um boletim de ocorrência foi feito em delegacia especializada. A Universidade Federal de Minas Gerais informou, por meio de nota, que abriu investigação administrativa para apurar as denúncias, já que o acusado seria professor da instituição. Pelo que se sabe até então, ele também é consultor de alguns projetos do governo estadual e outras iniciativas.

O que torna esse episódio emblemático não é apenas o teor das falas, mas a naturalidade com que foram proferidas. Não houve impulso momentâneo, não houve explosão isolada. Houve abordagem, zombaria, retorno ao local e nova ofensa. Uma sequência que revela intencionalidade e desprezo, pelo que foi relatado por quem acompanhou a situação.

Quando alguém transforma a deficiência do outro em motivo de deboche, não está apenas sendo grosseiro. Está reduzindo uma pessoa à sua condição física e negando sua condição de sujeito. Está comunicando que aquele corpo vale menos, que aquela presença incomoda, que aquele cidadão ocupa um espaço que, na lógica do preconceito, não deveria ocupar.

A Comissão Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência da OAB-MG afirmou que o relato expõe uma sucessão de violações que não podem ser naturalizadas: estacionamento irregular, obstrução de equipamento essencial de acessibilidade e falas que deslegitimam a condição física de uma pessoa. A nota é clara ao afirmar que se trata de direito, não de sensibilidade exagerada.

Direito de ir e vir. Direito de acessar espaços públicos e privados. Direito de circular pela cidade sem ser constrangido.

O Brasil possui legislação que garante proteção às pessoas com deficiência, mas o cotidiano mostra que a existência da lei não garante, por si só, o respeito. O maior desafio é cultural. Enquanto rampas, vagas e adaptações forem vistas como concessões, e não como parte da infraestrutura básica, a exclusão seguirá sendo tratada como detalhe.

As histórias de Larissa e Theo, assim como a de Juliana e Pedro, revelam que a luta não é apenas contra barreiras arquitetônicas. Ela é também contra uma mentalidade que hierarquiza vidas, que considera algumas plenamente válidas e outras toleráveis desde que não atrapalhem. E isso é tão mesquinho que chega a doer só de pensar.

Essa lógica se sustenta em pequenas práticas cotidianas: no carro parado onde não deveria, na piada dita sem constrangimento, no silêncio de quem presencia e não se envolve - fiquemos atentos a isso. O preconceito raramente se apresenta apenas em grandes gestos. Ele se manifesta, sobretudo, na repetição do banal.

Pensar acessibilidade como eixo central das cidades não é gesto de generosidade. É política pública básica, planejamento urbano responsável, compreensão de que a cidade real é composta por pessoas com diferentes corpos, idades e condições.

Casos como o ocorrido em Belo Horizonte não são exceções isoladas. Eles funcionam como retrato de um problema estrutural que atravessa espaços públicos, instituições e relações cotidianas. Dar visibilidade a esses episódios não atende a um desejo de exposição, mas a uma necessidade de enfrentamento.

Uma sociedade que se pretende democrática precisa garantir, antes de qualquer outra coisa, que ninguém seja impedido de circular, de acessar serviços ou de frequentar espaços por causa de sua condição física. Quando isso falha, não estamos diante de uma falha individual apenas. Estamos diante de um fracasso coletivo que exige resposta institucional, responsabilização e mudança de práticas.

Sem isso, continuaremos acumulando relatos, boletins de ocorrência e notas de repúdio, enquanto o básico, que é o respeito, segue em falta. Episódios como esse não são apenas tristes e lamentáveis: são repugnantes. Cuidemos para que não sejamos as pessoas que veem uma situação dessas e seguem o caminho, indiferentes.

Compartilhar
Ediminas S/A Jornal Hoje em Dia.© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por