
Eu entrei no ônibus, viajando de Belo Horizonte a São Paulo, e sentei lá nas últimas poltronas, como faço de costume. Era cedo do dia e a viagem prometia ser tranquila, pois eu levava um pequeno livro e tinha planos de lê-lo até o final, como o fiz. Mas um fato me distraiu por algum tempo, pois o que eu ouvi me fez pensar em tantas coisas.
Na minha frente uma mãe desesperada, ao telefone desde que iniciamos o trajeto, chorava, falava, não respirava. Ela estava na poltrona logo à frente da minha e eu a ouvia, mesmo que não quisesse. Mas eu queria, porque o assunto dela era a vida real se desdobrando.
O filho adolescente tinha uma namorada da mesma idade. Estavam apaixonados, só queriam ficar juntos, eram grudados o dia todo, se não fosse presencialmente, era via mensagem de celular, ligação, troca de foto. A mãe já se preocupava com aquela situação, pois um e outro ficavam pedindo registro de onde estava, com quem estava. E o tempo todo era um mandando foto para o outro ou ligando de chamada de vídeo para provarem localidade e companhias.
Até o dia em que a menina resolve terminar o namoro. O garoto não deu conta: “ele tem que entender que ninguém é dono de ninguém nessa vida, eu já disse isso a ele mil vezes”, falava a mãe com quem estava do outro lado da chamada.
Pois não é que o menino, não satisfeito com o término do namoro, ao invés de ir chorar em uma cama, que faz bem e organiza a dor e o pensamento, resolveu ir pra cima da menina e numa emboscada forçá-la a voltar o namoro. Numa negativa da garota, o adolescente ameaçou tirar a vida dela e a sua própria. A menina ficou com medo, ele a segurava com força, ameaçava com algo. Não conseguiu, mas voltou para casa e tentou se matar.
Por sorte nenhum dos dois sofreu, fisicamente, nada mais grave. Mas, o limite chegou para aqueles dois. A gente não sabe a régua do limite de cada pessoa. É como se fosse um daqueles copos de medida, com a indicação dos milímetros, mas que cada um de nós tem um risquinho a mais ou a menos que outras pessoas. Ninguém sabe quanto o outro aguenta e quando o outro derrama.
Sabemos que têm pessoas que são bem sensíveis a limites e frustrações e desaguam com algo que para quem está de fora pode parecer pouco.
Naquele momento da narrativa eu já julgava a mãe, que não educou o filho para os problemas e situações da vida, até entender que eu nem convidado fui para aquela história, que eu não sei de nada da vida daquelas pessoas, não conheço o mínimo de contexto para analisar, ou julgar mesmo, aqueles fragmentos que eu tinha ouvido. E quem sou eu pra falar do limite dos outros.
Lembro de um dia que embarquei no avião e a pessoa que estava algumas poltronas à minha frente desceu o encosto da sua poltrona, antes mesmo do avião decolar. Eu pensava: será que ela não sabe que o assento precisa estar alinhado para a decolagem? E fiquei esperando a aeromoça passar e chamar a atenção para aquele fato. Dito e feito: “senhora, a senhora pode ajustar o encosto da poltrona?”. Eu sorri por dentro, porque eu sabia que isso ia acontecer e que ela deveria ter esperado a decolagem para reclinar o encosto. Aí ouço uma voz: “senhor, senhor?”. Eu olhei, era a outra aeromoça me dizendo: “o senhor pode voltar o encosto do seu assento para a posição vertical?”. É isso, preocupado com o assento (e a vida) do outro, eu nem tinha me dado conta que o meu encosto também estava reclinado.
Quando aquela jovem mãe terminou a chamada, vi que ela estava em prantos. Pedi licença e perguntei se poderia pegar um copo de água para ela. Ela aceitou. Daí ela me contou a história que a afligia e com um pouco mais de contexto. E ela me disse dos abusos que ela passou na infância, da adolescência turbulenta, da ausência do pai, que quando estava presente era pior. Ela se culpava por ter tentado dar ao filho uma vida sem esses problemas, mas que o protegeu demais. Eu não sabia nada, então só ouvia, sem me preocupar em ter a resposta certa, porque o que ela precisava era falar. Depois disso, conseguiu dormir um bom tempo.
Saí daquela viagem pensando em quantas vezes julgamos uma vida conhecendo apenas algumas linhas da história. Ainda mais agora, com as redes sociais, as pedras já estão prontas no estilingue.