
Quem atua no voluntariado ou no terceiro setor aprende cedo que é rotineiro lidar com problemas que chegam de todos os lados. Há um imaginário de que o trabalho social é feito apenas de gestos generosos, abraços e histórias de superação. Existe tudo isso, é verdade, mas existe também uma realidade muito mais dura.
Boa parte do tempo é dedicada a enfrentar burocracias. São documentos, relatórios, prestações de contas, planilhas, exigências legais e rigor contábil. Organizações que nasceram da vontade de ajudar acabam, inevitavelmente, mergulhadas em processos administrativos complexos para conseguir continuar existindo.
Mas o mais difícil não está no papel, e sim nas histórias que chegam todos os dias.
É a criança negligenciada pela família, o idoso que perdeu os vínculos e já não tem quem o procure. É a pessoa em situação de rua que não consegue acessar um benefício básico porque não possui um documento ou não tem instrução para entender os caminhos necessários. É a mãe que abandona o filho, ambos já abandonados por um homem que ameaçava e agredia a esposa dentro da própria casa. São também crianças amadas, que precisam de um lugar para ficar enquanto os pais trabalham, adolescentes que são abraçados pelos esportes e pela música.
Quem trabalha no social carrega uma coleção imensa de histórias que não cabem em relatórios nem em planilhas; experiências que se acumulam e que, muitas vezes, acabam se misturando com as próprias dores de quem atua nessa área.
Com o tempo, aprende-se uma lição que não costuma aparecer nos manuais: no terceiro setor, muitas vezes, temos apenas uns aos outros. E mesmo isso nem sempre é simples. Cada instituição corre para dar conta do que precisa ser feito, cada equipe se divide entre urgências diárias e demandas que não param de chegar. Todos trabalham muito, cansam muito, correm muito. Às vezes falta até tempo para que uma organização apoie a outra.
Em casa, depois de algum tempo, as pessoas já não conseguem ouvir tantas histórias difíceis. No trabalho, o ritmo não permite grandes pausas para elaborar o que foi visto ou ouvido. E quando finalmente há silêncio, cada um ainda está tentando digerir o que sentiu naquele dia.
Por isso continuo insistindo em algo que considero fundamental: precisamos nos apoiar mais.
As instituições sociais poderiam caminhar com maior proximidade. Não se trata de fusão, nem de perda de identidade. Cada organização tem sua história, sua cultura, sua forma de atuação. O que proponho é outra coisa: a construção de uma rede mais próxima, mais solidária, mais atenta, mais respeitosa.
Também é preciso reconhecer algo que raramente se diz em voz alta: muitas organizações sociais continuam funcionando graças à persistência quase silenciosa de quem acredita na causa. Ainda assim, todos os dias alguém abre o portão, atende uma família, escuta uma história difícil, tenta encontrar um caminho possível. É um trabalho que exige resistência emocional e muito compromisso.
O trabalho social sempre exigirá coragem, mas ele pode se tornar menos solitário quando entendemos que, nesse caminho, é cansativo e desesperador caminhar sozinho.