
As fachadas das casas de acolhimento costumam ser discretas. Quem passa pela rua raramente imagina que, atrás delas, seguem vidas marcadas por rupturas que começaram cedo demais. Ali vivem crianças e adolescentes que um dia atravessaram aquele portão trazendo uma sacola com poucas roupas, muitas perguntas e medos. Eles estão ali porque, em algum momento, a rede de proteção entendeu que permanecer onde estavam já não significava segurança. Em muitas dessas histórias, a vida adulta, por razões diversas, não conseguiu oferecer aquilo de que toda infância precisa para crescer com tranquilidade. Uns carregam o alívio momentâneo; outros chegam chorando a dor da separação de uma mãe e de um pai negligentes, mas talvez as únicas referências de amor que têm. Isso me lembra os irmãos gêmeos no filme Hereafter (2010).
Entre essas histórias estão bebês retirados da mãe ainda na maternidade. Quando profissionais de saúde e autoridades percebem que não existem condições mínimas para garantir cuidado e proteção, a decisão precisa ser tomada rapidamente. Outras crianças chegam mais crescidas, vindas de contextos marcados por negligência, abandono ou violências. Alguns relatos são difíceis de esquecer: uma adolescente contou que foi adotada duas vezes e depois devolvida quando a família adotiva teve um filho biológico. Outra menina recorda que foi para o abrigo com três irmãs e viu, aos poucos, cada uma seguir um destino diferente, apesar de a instituição ter tentado não separá-las. “Eu não conheci meu pai e minha mãe não se perdoava por não conseguir criar a gente sozinha”, disse ela ao explicar por que cresceu dentro de uma instituição.
Eu sempre falo que o “com Deus” de uma mãe é medicinal. E quantas dessas crianças não sentem esta falta?
Dentro dessas casas a vida segue com uma rotina que procura devolver alguma previsibilidade aos dias: há horários para acordar, refeições compartilhadas, tarefas escolares e conversas que tentam organizar sentimentos difíceis. Educadores, psicólogos, assistentes sociais e coordenadores trabalham para oferecer o básico, sabendo que nenhum cuidado institucional substitui plenamente aquilo que toda criança deseja: sentir que pertence a alguém e a algum grupo. Em muitos momentos são nesses pequenos gestos cotidianos que se constrói algum senso de segurança. Um aniversário lembrado, um bolo improvisado, um caderno novo para o início das aulas ou simplesmente alguém que se senta ao lado para escutar uma história ou participar de um joguinho podem representar muito mais do que parecem à primeira vista.
As roupas são doadas, as festas organizadas por voluntários, o material escolar vem de campanhas da própria instituição, os calçados e as roupas de frio chegam de escolas particulares que realizam visitas solidárias. Os quartos têm quatro pessoas, ninguém pode usar a cozinha sem autorização e os portões ficam fechados pela segurança de todos. Por mais que pareça uma casa e que haja cuidado e carinho, ali ainda não é um lar. Muitos deles ainda não conheceram um lar de fato. Alguns detestam ser associados à casa de acolhimento, e têm toda razão: os colegas da escola não moram em casas de acolhimento.
Para os adolescentes, o tempo ganha um peso ainda maior. Um deles resumiu de forma simples aquilo que espera do futuro: “qualquer família seria boa, desde que me desse o carinho que eu não tive na infância”. Outros dizem que gostariam apenas de experimentar algo que muitos consideram comum: sentar à mesa com alguém que pergunte como foi o dia, ter um lugar seguro para voltar depois da escola, ouvir que alguém sente orgulho de suas conquistas, mesmo que pequenas.
Essas crianças e adolescentes não pedem privilégios: pedem oportunidades, vínculos e a chance de construir uma história que não as aprisione às dificuldades do início.