Tio FlávioPalestrante, professor e criador do movimento voluntário Tio Flávio Cultural.

O futuro não espera pelo amanhã

Publicado em 01/01/2026 às 06:00.

O nome Fórum do Amanhã já carrega em si uma tensão interessante. Ele aponta para o que vem depois, mas cobra ação imediata. Amanhã não é promessa distante; é responsabilidade presente. Quando se fala no “futuro do amanhã”, a sensação é de um tempo empilhado, como se o adiamento tivesse virado método. O Fórum nasce justamente para romper essa lógica e recolocar o presente no centro da conversa.

Fui convidado a compor duas mesas na edição que marcou os dez anos do evento, no fim de novembro de 2025. O encontro começou em Belo Horizonte, mas ganhou corpo e profundidade em Tiradentes, Minas Gerais. Não foi uma escolha aleatória. O ritmo da cidade, o tempo mais humano das caminhadas e dos encontros, tudo parecia colaborar para que as ideias não fossem apenas apresentadas, mas realmente vividas.

Foi nesse contexto que conheci Ralph Justino, um dos idealizadores do Fórum. Sua trajetória ajuda a compreender o espírito do evento. Ex-prefeito de Tiradentes, com forte atuação na área cultural e educacional, Ralph construiu uma visão de futuro ancorada na prática. Para ele, pensar o amanhã não é exercício intelectual isolado, mas compromisso coletivo. O Fórum surge desse entendimento. Reunir pessoas, promover trocas, estimular soluções conjuntas e fortalecer a ideia de que nenhum problema complexo se resolve de forma solitária.

Ao longo dos painéis, uma convicção atravessava as falas. Educação não é apenas um setor. É uma força transversal. Ela molda a relação com o meio ambiente, orienta o uso das tecnologias, influencia decisões políticas e redefine a maneira como nos relacionamos. Falar de educação, ali, era falar de cultura, ética e pertencimento.

Essa percepção ficou especialmente clara no painel de encerramento, que reuniu Cristovam Buarque e João Almino. O diálogo revelou um país tensionado entre dois tempos. O tempo urgente do agora e o tempo lento do futuro. Cristovam trouxe a ideia de que a crise ambiental é, antes de tudo, uma crise de mentalidade. Defendeu a necessidade de uma educação em escala global, capaz de formar uma geração que compreenda dignidade social e limites ecológicos como partes inseparáveis do mesmo projeto civilizatório. Falou do Homo sapiens harmonicus como horizonte ético, não como promessa fácil.

João Almino ampliou a conversa ao alertar para os riscos das soluções puramente técnicas. Sustentabilidade sem humanismo se torna gestão fria da escassez. Democracia fragilizada abre espaço para o medo e para respostas autoritárias. Proteger o futuro exige, portanto, proteger as instituições, o diálogo e a capacidade de convivência.

A desigualdade apareceu de forma concreta. Não como número ou gráfico, mas como experiência cotidiana. Quem tem acesso ao básico e quem vive sob permanente ameaça. Discutiu-se a necessidade de limites para a riqueza extrema não por viés moral, mas por sobrevivência coletiva. Desigualdades baseadas em talento e esforço só se sustentam quando todos partem do mesmo chão. Saúde, educação e dignidade não podem ser privilégio.

Outros painéis mostraram que o futuro não é apenas projeto, mas prática em curso. O debate sobre a Apac de São João del-Rei foi um desses momentos. Ali, o foco não estava na punição, mas na reconstrução possível. A Apac parte de um princípio simples e desconcertante. Ninguém se recupera sendo tratado como coisa. Disciplina rigorosa convive com reconhecimento e vínculo. O resultado não é romantização do erro, mas aposta na responsabilidade e na dignidade como caminhos de transformação. E, mais uma vez, a educação está presente, não representada como sala de aula apenas, mas como ampliação de perspectivas.

Outro painel deslocou o olhar sobre as favelas. Em vez de enxergá-las apenas como territórios de ausência, o Fórum evidenciou sua potência. Onde o Estado falha, a comunidade cria redes de cuidado, soluções criativas e modelos de organização social. As favelas apareceram não como periferias do futuro, mas como centros ativos do presente. Lugares onde se aprende, na prática, a sobreviver, a cuidar, a criar, a transformar.

Ao final do evento, tornou-se claro que educação, no sentido mais amplo, é uma experiência social contínua. Ela acontece na escola, mas também na prisão, na favela, na praça, no trabalho e nas relações diárias. A mudança de cultura precede qualquer política pública duradoura.

Valorizar o passado ajuda a compreender o presente e a projetar o futuro. O poder permanece concentrado porque muitos ainda não reconhecem o próprio papel na construção coletiva.

O Fórum do Amanhã não se propõe a prever cenários nem a oferecer respostas prontas. Sua força está em criar espaço para o encontro, para a escuta e para o desconforto produtivo, aquele que nos tira do lugar confortável das certezas e nos obriga a rever práticas. Pensar o futuro exige mais do que projeções ou relatórios bem-intencionados. Exige coragem para agir agora, no território concreto das relações, das escolhas e das renúncias.

Nesse sentido, ecoa a reflexão de Nego Bispo, quando lembra, em A terra dá, a terra quer, que a terra não é recurso a ser explorado, mas relação a ser cuidada. Para ele, quando se rompe o pacto com a terra e com a coletividade, o que se perde não é apenas equilíbrio ambiental, mas o próprio sentido de pertencimento. O futuro, nessa visão, não nasce da acumulação, mas da reciprocidade.

A fala dialoga diretamente com Ailton Krenak, ao afirmar que adiar o fim do mundo passa por aprender a viver de outro modo. Não se trata de imaginar um amanhã ideal, mas de reconstruir o presente com mais responsabilidade, vínculo e escuta. O Fórum aponta nessa direção. Não como promessa confortável, mas como tarefa compartilhada, que exige de cada um mais presença, mais implicação e menos adiamento.

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