Tio FlávioPalestrante, professor e criador do movimento voluntário Tio Flávio Cultural.

O que nela já era educação

Publicado em 16/10/2026 às 06:00.


Ela acorda muito cedo todos os dias. Até mesmo nos dias de descanso, seu corpo já não costuma ficar pacientemente acomodado na cama. São décadas fazendo isso, que chega uma hora em que você nem percebe mais.

Ainda está escuro lá fora. O filho mais velho, que se separou amigavelmente da esposa, dorme no outro quarto. Ela prepara o café com saudosismo. Lembra do marido que já morreu, dos filhos quando ainda eram pequenos e estavam na fase escolar, que ficavam após o horário de aula, correndo no pátio da escola, esperando que ela acabasse suas atividades administrativas para levá-los embora.

Em casa, quando chegava, o almoço já estava adiantado. Ela mesma tinha deixado feijão e arroz novinhos, já prontos. O bife estava temperado, a batata, pronta para fritar, e a salada ela faria na hora, junto de um suco que serviria aos meninos.

Enquanto eles viam televisão, ela dava um jeito na casa, nas roupas para lavar, nas roupas para passar. Um menino recolhia, com muita preguiça, as sacolas de lixo dos banheiros e varria alguns cômodos, enquanto o outro dava um jeito no quintal e tratava os animais. No dia seguinte, tarefas trocadas.

No final do dia, quando o marido chegava do trabalho, o jantar estava feito. Eles não eram muito de jantar, não. Um dia ou outro é que ela cismava. Na maioria dos dias, era um café ou um suco de saquinho, acompanhado de um misto, cachorro-quente ou outra coisa parecida. Os meninos riam porque o suco marcava a boca de tal forma que parecia que eles tinham usado batom.

Todos iam para a televisão assistir às novelas. Ela iria só mais tarde, para ver a “novela oito”. Antes disso, ela sentava à mesa da sala, espalhava cadernos e livros, escrevia um tanto de coisa, preparando a aula para o dia seguinte. Ela tinha duas folgas à tarde, por isso esses eram os melhores dias para curtir os filhos, tirando os fins de semana. Acabava de preparar a aula e já chamava os meninos para que eles fossem fazer os exercícios escolares. No dia que antecedia o dia de provas, nem televisão eles tinham, a menos que conseguissem acabar os estudos antes.

Tinha dias em que ela conseguia terminar tudo antes de o jornal começar. Os meninos iam para o banho, e todos assistiam juntos à novela principal.

Naquela manhã, essa história passava como um filme em sua cabeça. Dia dos Professores chegando, ela cumprindo quase 30 anos entre direção e sala de aula, ainda preparando suas aulas diariamente, buscando textos e músicas para acrescentar ao que já vinha nos livros didáticos. No outro quarto estava seu pai, idoso, sofrendo as dores do Parkinson, com uma perda progressiva da capacidade de pensar, compreender, tomar decisões e realizar atividades do cotidiano. Uma cuidadora ficava durante o dia, e era ela quem dava assistência à noite, acordando diversas vezes para socorrê-lo das agitações durante o sono e da confusão mental.

Antes de sair, acorda o filho para tomar conta do avô até a cuidadora chegar. Naquela noite, ele tinha ficado muito agitado, e ela não tinha dormido nada. Pega a bolsa, os livros e cadernos e vai para a escola, que fica a alguns quarteirões de sua casa. Sorte a dela que não enfrenta o transporte público para ir trabalhar, pois aí teria que sair ainda mais cedo.

Na sala de aula, adolescentes chegam carregando suas mochilas, suas preguiças e um monte de histórias. Pais separados, mãe que tem medida protetiva contra o marido, irmão que sofreu racismo ao entrar numa loja de shopping, irmão com autismo, mãe que trabalha muito e dorme pouco, falta de dinheiro para um tênis novo, um amor escondido que cresce pelas frestas, pois não pode se tornar visível numa sociedade preconceituosa, falta de amigos, uma guerra quase que perdida contra as espinhas, o desejo de que o cabelo fosse igual ao do colega de sala.

E lá está ela, com seus problemas, com suas dúvidas e dores, com sua gratidão e fé, honrando o juramento feito no dia da formatura: “em prol de sujeitos críticos, conscientes de sua realidade e com autonomia para transformá-la”.

Ela carrega consigo aquilo que aprendi com a professora e amiga Cristiana Ituassu, numa frase atribuída a Quino, o criador da Mafalda: “Educar é mais difícil que ensinar, pois para ensinar é preciso saber, mas para educar é preciso ser.”

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