Tio FlávioPalestrante, professor e criador do movimento voluntário Tio Flávio Cultural.

Onde se aprende a empatia?

Publicado em 25/09/2026 às 10:22.Atualizado em 25/09/2026 às 10:24.

Uma história sobre a educação da Dinamarca circula há algum tempo pelas redes sociais, dizendo que as escolas do país têm uma aula semanal de empatia, na qual crianças e adolescentes conversam sobre sentimentos, conflitos e relações. A história é bonita, mas a realidade é um pouco diferente. Na Dinamarca existe, sim, o klassens tid, que pode ser traduzido como “tempo da turma”: um período que pode ser utilizado para trabalhar o bem-estar dos estudantes, as relações dentro da turma, a cooperação, o desenvolvimento social e a participação na vida coletiva, mas não existe uma disciplina obrigatória chamada Empatia, como sugerem algumas versões que circulam na internet.

A correção dessa informação abre uma discussão que considero muito interessante: precisamos mesmo criar uma disciplina para ensinar uma criança a se colocar no lugar do outro? A empatia pode até ser discutida em um horário específico, especialmente quando uma turma precisa conversar sobre conflitos, exclusão, convivência ou alguma situação que esteja afetando seus integrantes, mas ela dificilmente será aprendida apenas porque alguém reservou cinquenta minutos na semana para falar sobre ela. Existe uma diferença grande entre conhecer o significado de uma palavra e experimentar aquilo que ela significa na própria vida.

Uma criança pode ouvir uma explicação sobre respeito e passar o restante do dia observando adultos que não se respeitam; pode participar de uma atividade sobre escuta e descobrir, pouco depois, que sua opinião não interessa quando uma decisão é tomada; pode aprender que é importante acolher quem pensa ou vive de maneira diferente e perceber, na própria rotina, que determinadas diferenças continuam sendo tratadas como um incômodo. A escola ensina por aquilo que “coloca no quadro”, mas também ensina pelo ambiente que constrói, pelas relações que permite, pela maneira como reage ao erro, pelo modo como um professor conversa com um aluno, pela forma como os próprios adultos resolvem suas divergências diante das crianças e pela postura das famílias junto à instituição escolar.

Por isso, considero útil a existência do klassens tid, não como uma fórmula dinamarquesa que deveríamos importar, mas como uma oportunidade para pensar sobre o lugar que damos à convivência dentro da educação. Uma escola precisa ensinar matemática, língua portuguesa, ciências, história e tantos outros conhecimentos, mas também precisa lidar com aquilo que acontece entre as pessoas enquanto esses conhecimentos são ensinados.

Afinal, uma criança pode aprender muito sobre o mundo e continuar sem saber como conviver com quem está ao seu lado, e essa também é uma aprendizagem que terá consequências para sua vida. Mas é importante ressaltar: a escola não ocupa o lugar da família, que tem sua responsabilidade primária nessa e em outras questões.

Antoine de Saint-Exupéry escreveu que somos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos. Rubem Alves, ao refletir sobre essa frase, chama atenção para o peso que existe quando colocamos sobre uma pessoa a responsabilidade pelo outro e propõe uma ideia que considero mais adequada para a educação: a corresponsabilidade. Uma criança não é formada por uma única pessoa ou por uma única instituição; ela vai se constituindo nas relações que estabelece com a família, com os professores, com os colegas, com a comunidade e com os adultos que observa diariamente, muitas vezes sem que esses adultos percebam que também estão ensinando quando simplesmente vivem diante dela.

Por isso, não me parece justo colocar sobre a escola a tarefa de resolver sozinha uma questão que pertence a todos nós. Uma sociedade que deseja pessoas mais capazes de ouvir precisa também examinar a maneira como ouve; uma família que espera respeito precisa observar como trata os outros; uma escola que deseja cooperação precisa olhar para a maneira como seus próprios adultos trabalham juntos.

E é aí que a ideia de corresponsabilidade ganha força. E a pergunta que deveríamos fazer não é apenas o que estamos ensinando às crianças, mas que tipo de mundo estamos apresentando a elas todos os dias.

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