Tio FlávioPalestrante, professor e criador do movimento voluntário Tio Flávio Cultural.

Pequeno gesto de permanência

Publicado em 13/03/2026 às 06:00.


No registro do lar, seu nome está escrito Elizabeth, mas ela gosta mesmo de ser chamada de Bebete. Aos 75 anos, diz que o corpo anda reclamando demais. Doem as costas, os joelhos, às vezes as mãos, ainda mais nos dias de frio. Falta ânimo para algumas coisas simples do dia, como caminhar até o jardim ou permanecer muito tempo numa roda de conversa. A perda de vigor parece entristecê-la. Quando alguém tenta consolá-la dizendo que aquilo é consequência de uma vida inteira de trabalho, ela responde, com certa impaciência, que sempre escuta essa explicação. Em seguida comenta que as pessoas dizem isso para evitar falar a palavra que realmente pensam: velhice. A sua fala não me parece rabugenta, mas marcada com uma lucidez quase desconcertante.

Nos últimos meses comecei a perceber que Bebete estava diferente: andava mais cabisbaixa, interagia menos com os outros moradores, bebia pouca água e comia quase nada. Aquela lentidão não parecia apenas cansaço físico. Comentei com as cuidadoras que ela parecia estar entrando numa tristeza mais profunda, porque andava mais calada, com pouca vontade de interagir. 

Elas disseram que estavam observando, já que mudanças assim às vezes aparecem devagar e nem sempre é fácil entender, no começo, o que realmente está acontecendo.

Num dia em que fui visitar a instituição, Bebete estava no quarto. A luz da manhã atravessava a cortina clara e fazia um desenho no chão. Aproximei-me da cama e perguntei se podia segurar sua mão. Ela respondeu com um leve movimento de cabeça. Ficamos ali algum tempo enquanto eu contava histórias simples do cotidiano, dessas que não mudam o mundo, mas ajudam a ocupar o silêncio. Ela falava pouco. O olhar parecia passear entre o presente e algum lugar distante que só ela reconhecia.

Sempre me impressiona perceber como, em certos momentos da vida, algumas pessoas passam a caminhar mais pelos corredores da própria memória do que pelos acontecimentos do dia. As lembranças parecem ganhar espaço, como se fossem quartos antigos que voltam a ser visitados.

Alguns dias depois, quando voltei ao lar, havia no ar aquele silêncio que dispensa explicações. Bebete havia partido. Entre os poucos objetos que ficaram no quarto havia um livro de cabeceira que ela tinha pedido que fosse entregue a mim. Quando o abri, encontrei uma flor seca marcando uma página. A imagem tinha algo de delicado e definitivo ao mesmo tempo, como se aquela flor tivesse permanecido ali apenas para guardar uma pequena história.

Essas situações costumam me fazer lembrar de uma expressão que aparece com frequência nas conversas: memórias afetivas. O termo parece sofisticado, mas descreve algo muito simples. São lembranças que ficam guardadas na mente, associadas a alguns objetos, preservadas nos cheiros, nas músicas e nos pequenos rituais do cotidiano. Um perfume antigo, uma canção que toca no rádio ou uma flor deixada dentro de um livro podem guardar pedaços inteiros da vida sem fazer muito alarde.

Na margem da página havia uma anotação a lápis, escrita com letra trêmula: “Fui tarde começar a aprender a importância do desapego. Devia ter amado sem ter querido possuir”.

Uma palavra chamava atenção. O verbo “querido” estava escrito com uma cor diferente.

Fiquei olhando aquilo por algum tempo. A língua portuguesa guarda pequenas coincidências curiosas. “Querer” é verbo de desejo, de posse, de tentativa de segurar algo. Mas dentro dele, com imaginação sensível, também se pode ler o adjetivo “querido”, que é afeto, proximidade e cuidado.

A flor seca dentro do livro parecia repetir a mesma lição silenciosa. Guardada ali, preservava uma lembrança, mas já não era a flor viva de antes. As memórias afetivas funcionam um pouco assim. Elas não trazem o passado de volta, mas mantêm acesa a parte dele que continua habitando em nós. A flor que Bebete deixou dentro daquele livro talvez fosse apenas um marcador de página. Ainda assim, ficou como um pequeno gesto de permanência, desses que continuam falando mesmo depois que a pessoa já seguiu o seu caminho.

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