Tio FlávioPalestrante, professor e criador do movimento voluntário Tio Flávio Cultural.

Políticos prestam?

Publicado em 09/01/2026 às 06:00.Atualizado em 12/01/2026 às 20:22.

Quando eu era bem mais novo, assinava uma coluna em um jornal de Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Chamava-se “A política levada a sério”. O nome carregava um desejo genuíno de quem acreditava que política podia ser mais do que disputa de poder. A proposta era estimular jovens entre 16 e 18 anos a tirarem o título eleitoral e a perceberem que votar não era um ato burocrático, mas um gesto de pertencimento à vida coletiva.

Eu gostava de política, sobretudo daquela que de fato se voltava para o comunitário. Sempre acreditei que um representante eleito não deveria perder de vista aquilo que mais importa para quem o escolheu e também para quem não o escolheu. Governar, para mim, era cuidar do comum, pensar a cidade como espaço de convivência, reduzir desigualdades e escutar quem historicamente teve pouco espaço de fala.

Com o tempo, fui estudar marketing político, fiz cursos, li bastante, cheguei a dar palestras sobre o tema. Aprendi estratégias, narrativas, construção de imagem. Ainda assim, mantinha uma convicção quase teimosa: ganhar uma eleição não podia ser o ponto de chegada. O mandato deveria ser um instrumento de transformação social, atento às pessoas, às melhorias coletivas e, sobretudo, aos grupos minorizados, cujas vozes raramente encontram eco nos gabinetes.

A desilusão veio de forma gradual. Ou eu esperava algo que não cabia naquele jogo, ou boa parte dos políticos estava menos interessada no bem comum e mais focada na própria permanência no poder. 

Sobrevivência e manutenção de currais eleitorais, troca de favores, dominação sutil, ou nem tanto, de quem depende, não questiona ou se rende em troca de promessas ou pequenos benefícios. Era o fim da década de 1990. A política já apresentava vícios conhecidos, mas ainda não contava com os palcos digitais que hoje amplificam discursos, distorções e encenações manipuladoras, valorizando uma inversão do pensamento maquiavélico, que se tornaria: “o príncipe deve fazer o mal sempre que possível e o bem quando necessário”. Maquiavel, contudo, pensava de forma mais complexa: para ele, a moralidade não pode ser analisada fora dos parâmetros concretos da vida política.

As redes sociais alteraram profundamente o cenário. Muitos políticos passaram a produzir falas calculadamente polêmicas para ganhar visibilidade. Uma encenação bem ensaiada, um vídeo provocativo, uma frase agressiva ou vazia, às vezes até construída por inteligência artificial, encontra ressonância em um público igualmente exausto e carente de sentido. 

O alcance é imediato, mensurável, sedutor. A política, em muitos casos, virou espetáculo. E, aqui, cabe uma busca cinematográfica para entender mais o assunto. Filmes bem antigos, como “Mera coincidência”, com Dustin Hoffman e Robert De Niro e “O Candidato”, com Robert Redford, desenham um cenário que ganharia o adicional das redes virtuais e IAs.

Desiludi com os políticos e com a forma como fazem política. Sempre houve exclusão, mas o cenário atual parece mais mesquinho. Surgem nomes novos, alguns vindos de grupos historicamente marginalizados, convivendo com herdeiros de sobrenomes tradicionais. Cria-se uma sensação de participação e representatividade que nem sempre se traduz em compromisso real com o coletivo.

É verdade que vimos pessoas de públicos minorizados ocuparem cadeiras no Legislativo. Representantes institucionais, religiosos, sindicais, comunitários também estão lá. Ainda assim, a inquietação permanece. Quantos estão de fato preocupados em pensar políticas públicas para a coletividade e quantos se dedicam, prioritariamente, a garantir a própria permanência ou ascensão na carreira política?

Votei e continuo votando. Em raros momentos, procurei políticos eleitos por mim e também outros que não receberam meu voto, mas que exercem funções públicas financiadas pelos impostos que pago. Nunca fiz pedidos pessoais. Sempre levei demandas sociais, causas coletivas, solicitações que não beneficiavam indivíduos isolados. Alguns nem se manifestaram. De outros, recebi acenos e promessas vagas. Retorno efetivo, nenhum. Vale reforçar: eram pedidos sociais, não favores privados.

Sei, no entanto, que política vai além do apoio a instituições sociais. Mas, se nem o mínimo conseguimos, como povo, o que esperar acerca de outros tantos assuntos?

Em certos momentos, pensei em desistir. Deixar para lá, aceitar que não há muito o que fazer e seguir distante desse campo. Foi então que a pergunta se impôs com força: afinal, o que é política?

Na Grécia Antiga, política nasce da ideia de pólis. Não apenas a cidade enquanto território, mas o espaço da vida comum, do encontro, do debate e das decisões compartilhadas. Aristóteles afirmava que o ser humano é um ser político porque só se realiza plenamente na convivência com os outros. Fora da pólis, a vida perde sentido coletivo.

Sócrates, ao ser julgado em Atenas, teve a chance de fugir. Optou por permanecer e aceitar a sentença. Em diálogos narrados por Platão, ele sustenta que desrespeitar as leis da cidade seria ferir a própria pólis que o formou. Em A República, Platão registra a ideia de que aqueles que se afastam da política acabam sendo governados pelos piores. Não como ameaça, mas como constatação.

A política, portanto, não se resume a eleições, partidos ou cargos. Ela diz respeito ao modo como organizamos a vida em comum. O sistema que temos hoje exige que elejamos representantes para a administração e para a elaboração das leis nos âmbitos municipal, estadual e federal. É um sistema falho, atravessado por tensões e contradições, mas ainda assim superior a experiências que já demonstraram não ser eficazes nem participativas.

Desistir do voto não corrige as distorções. A consciência sobre o valor do voto é mais necessária do que o afastamento. Conhecer o que cada candidato pensa, o que fez, o que faz, o que diz e, sobretudo, se há coerência entre discurso e prática. Avaliar se suas propostas servem apenas a interesses individuais ou se contribuem para o bem comum.

Por exemplo, é triste ver um candidato eleito com o seu voto aceitar uma tramoia eleitoreira ao se licenciar para que outro, da mesma coligação, às vésperas da eleição, assuma por seis meses e fortaleça seu nome por meio de agrados a grupos de interesse.

Marco Aurélio, imperador romano e filósofo estoico, escreveu que aquilo que não faz bem à colmeia não pode fazer bem à abelha. A metáfora é simples e profunda. A colmeia somos nós. A política só cumpre seu papel quando deixa de servir a abelhas isoladas e passa a cuidar da vida coletiva que sustenta todas elas.

E então a pergunta permanece, incômoda e necessária: políticos prestam? A resposta honesta não cabe em um sim ou não apressado. Alguns prestam, muitos decepcionam, outros sequer chegam a compreender o tamanho da responsabilidade que carregam. A questão central, no entanto, talvez não seja apenas sobre eles, mas sobre nós. Sobre o quanto acompanhamos, cobramos, participamos e nos recusamos a naturalizar o abandono do que é público. Quando a política deixa de ser assunto coletivo, ela se transforma em território de poucos. E esses poucos quase nunca são os melhores.

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