Tio FlávioPalestrante, professor e criador do movimento voluntário Tio Flávio Cultural.

Quando a doação vira descarte

Publicado em 03/04/2026 às 06:00.


Em Belo Horizonte, o Instituto Casa do Caminho realiza um trabalho que poucos imaginam em sua dimensão. A instituição acolhe pessoas vindas do interior de Minas Gerais, e até de outros estados, que chegam à capital para realizar tratamentos médicos complexos. São homens, mulheres e crianças que deixam suas cidades, suas rotinas e muitas vezes suas famílias para tratarem da própria saúde em hospitais da capital. Nesse período difícil, encontram na Casa do Caminho algo que ultrapassa o simples abrigo: encontram cuidado, acolhimento e dignidade.

Grande parte desse trabalho é sustentada pelo bazar mantido pela instituição. Ali são vendidos objetos doados pela comunidade, como: roupas, utensílios domésticos, móveis, livros e tantos outros itens que ganham nova utilidade. O dinheiro arrecadado mantém a casa funcionando, ajuda a pagar funcionários, cobre despesas de manutenção e garante que o acolhimento continue existindo. Para muitas instituições sociais, como esta, o bazar não é um complemento, mas acaba sendo a principal fonte de sobrevivência.

Doar, portanto, torna-se um gesto essencial. Sem ele, muitas dessas casas simplesmente não existiriam.

Mas algo curioso tem acontecido, e não apenas na Casa do Caminho. Voluntários que trabalham na triagem das doações relatam uma realidade que mistura surpresa e frustração. Entre as caixas e sacolas que chegam diariamente, uma parte significativa do material não tem qualquer condição de uso.

Chegam móveis quebrados ou em estado irrecuperável. Roupas manchadas, rasgadas ou extremamente sujas. Algumas chegam com manchas de sangue ou até mesmo com fezes. Sapatos aparecem sem sola, sem cadarço ou sem o par completo. Livros chegam faltando páginas. Alimentos e produtos de higiene aparecem vencidos ou já violados. Há situações difíceis de acreditar: absorventes usados, meias furadas e sem par, ventiladores sem hélice.

Não se trata de casos isolados. Em muitas instituições, quase 60% do que chega precisa ser descartado.

Isso significa trabalho extra, custo, sobrecarga e transtorno. Alguém precisa separar, carregar, transportar e descartar corretamente aquilo que nunca poderia ter sido considerado uma doação. Pessoas que poderiam estar dedicando tempo ao acolhimento acabam ocupadas com aquilo que, na prática, virou lixo.

Nossa cultura de doação ainda está em construção. A boa intenção existe, mas nem sempre vem acompanhada de reflexão. Nem tudo aquilo que sai de nossa casa pode ser chamado de doação. Às vezes, estamos apenas transferindo o problema para outro lugar.

Talvez o critério mais simples seja também o mais honesto. Antes de colocar algo numa sacola para doar, vale fazer uma pergunta silenciosa: eu usaria isso? Eu daria esse objeto para alguém que amo?

Se a resposta for não, dificilmente aquilo será útil para outra pessoa.

Itens sem condições de uso podem e devem seguir outros caminhos. Ecopontos, cooperativas de reciclagem e locais de descarte apropriado existem justamente para isso. Quando cada coisa encontra seu destino correto, todos ganham.

A Casa do Caminho iniciou recentemente uma campanha de conscientização sobre esse tema. A mensagem é simples e direta: doação não é descarte. Quando um objeto chega quebrado, sujo ou inutilizável, ele deixa de ajudar e passa a gerar mais trabalho e mais custos para quem já vive de recursos limitados. É o que reforça a campanha.

Doar é um gesto que nos lembra algo essencial sobre quem somos. O ser humano nunca viveu sozinho; desde sempre dependemos uns dos outros para atravessar as dificuldades da vida. Quando alguém separa um objeto em bom estado e decide entregá-lo a uma instituição, não está apenas passando adiante algo que já não usa. Está reconhecendo que pertencemos a uma mesma comunidade humana, na qual o cuidado circula de mão em mão. A doação, quando feita com respeito, transforma um objeto comum em um elo de solidariedade entre pessoas que talvez nunca se encontrem, mas que passam a compartilhar a mesma corrente de cuidado.

A qualidade daquilo que doamos também é uma forma de amor.

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