A filha dela não queria ir à escola, como boa parte das crianças. Chorava até cansar, entrava na escola aos soluços, fazia chantagem emocional. Lá dentro, a criança se transformava, brincava com todo mundo, ajudava as professoras. A mãe ouviu que tinha que ter mais tempo com a filha, pois ela estava muito carente desta presença, que é muito importante nos primeiros anos de toda criança.
Trabalhando o dia todo e pegando uns bicos como diarista nos fins de semana, ela resolveu ouvir o que as professoras diziam e deixar de ganhar um pouco de grana para ter mais tempo com a filha aos sábados e domingos. Iam ao parque da cidade, aproveitavam para comer algo diferente numa feira dos domingos, andar na roda-gigante e brincar nas atrações do parque do bairro. Até ao circo elas foram juntas.
A menina ia crescendo e vendo o exemplo da mãe, de trabalhadora, que lutava para ter as coisas em casa, onde não faltava nada, mas estava longe de ter luxos. Na verdade, luxo é ter a filha por perto, pensava a mãe. Uma amiga cobria o tempo entre a escola e a chegada da mãe do trabalho, durante a semana, e a criança não se sentia sozinha.
A menina cresceu, ficou adolescente, começou a ter amizades na escola, a se afastar um pouco mais da mãe, a ter vergonha de ela ser doméstica. Na cabeça da menina, que estudava agora numa escola estadual em que filhos de pais com mais acessos que ela também frequentavam, bom mesmo era ter pais formados, gerentes de empresas ou que fossem empresários, donos de um próprio negócio, sem precisar do patrão.
A distância foi sentida pela mãe, que pensou ser culpa daquela fase da adolescência, mas protestava assim mesmo. Nem à igreja a menina queria ir com a mãe mais. Ia mais cedo, ficava com o grupinho de amigas, mas voltava sozinha. A mãe não reconhecia mais a filha, sabia que ali dentro tinha aquela criancinha que tanto amava, e a adolescente que tanto ama, mas se culpava de não ter tido mais tempo com ela antes. Achava que esse afastamento fosse culpa da ausência de uma figura masculina, mas se lembrava de que o pai, morto num acidente de moto, também deve ter deixado boas lembranças na memória da filha.
Os outros homens que vieram não foram legais. Uns achavam que eram donos da mãe e outros viam a filha com olhos desejosos, com um olhar criminoso, por isso ela resolveu seguir sem ninguém.
A filha não quer saber de estudar, mas continua frequentando as aulas, mais em função das amizades, dos primeiros encontros. Sim, ela se encantava e ficava com alguns rapazes, mas não era nada sério. Um dia, um deles resolveu que podia mandar mais nela do que ela mesma. A menina se impôs e levou um tapa. Com vergonha e com medo, quis se distanciar, mas foi ameaçada. Ele dizia que mataria ela e depois se mataria, sem dó.
Foi no colo da mãe que ela achou conforto. Parecia que os braços da mãe tinham virado uma muralha, que protegia a filha de tudo e todos. A filha carregava várias vergonhas: a de ter se afastado tanto assim da mãe, de ter negado sua mãe diante das colegas, de ter caído na conversa daquele menino, de ter sido usada, de não ser tão forte o suficiente. Mas, não sei, talvez aquele abraço fosse como o ato de recarregar uma bateria, de pescar memórias e de mostrar-lhe um espelho.
O seu maior exemplo não vinha das redes sociais, pensou ela. Ele tem que vir daquela que sempre a abraçou e está mais perto do que ela imaginava, mesmo quando ela mesma se fez distante. E não tem alegria maior do que poder ter um abraço de quem te ama incondicionalmente.