Tio FlávioPalestrante, professor e criador do movimento voluntário Tio Flávio Cultural.

Quando um povo reconhece o valor que tem

Publicado em 06/03/2026 às 06:00.


Em 2005 viajei pela primeira vez para Cuba. A ideia era iniciar um doutorado. Fui com duas amigas e, ao chegar, encontrei vários brasileiros que estavam inscritos no mestrado e no doutorado na cidade de Matanzas, a cerca de 120 quilômetros de Havana. Aquela viagem, que poderia ter sido apenas acadêmica, acabou se tornando uma experiência humana e cultural muito marcante.

Apesar das dificuldades econômicas que a ilha enfrentava e ainda enfrenta, sobretudo em razão do embargo imposto pelos Estados Unidos desde 1962, havia algo muito forte que sustentava aquele povo: o sentido de comunidade. Em um calçadão da cidade, enquanto vendiam seus produtos, artesãos ensinavam seus ofícios a crianças e idosos. Não era apenas comércio; era transmissão de saber. Ensaios de bandas escolares aconteciam nas ruas ou nas praças, com estudantes uniformizados carregando seus instrumentos. A vida cultural não estava escondida em espaços fechados. Ela pulsava na rua, à vista de todos.

A música, a educação e a medicina eram motivo de orgulho coletivo. Havia um reconhecimento claro de que aqueles talentos pertenciam ao país e que era preciso celebrá-los. Mesmo em meio às dificuldades, as pessoas cantavam, dançavam, ensinavam e aprendiam. Não gosto dessa comparação, porque minimiza o sofrimento, mas parece que a alegria, a música e a dança eram manifestações de resistência. Parecia existir uma compreensão silenciosa de que valorizar a própria cultura ajudava a suportar as dores e a celebrar a vida. Voltei daquela viagem com uma impressão muito forte: quando um povo reconhece o valor do que é, fortalece sua identidade.

Sou mineiro. Gosto muito de Minas Gerais e costumo defender o meu Estado, sua capital e suas cidades, porque vivo aqui e conheço um pouco da riqueza do nosso povo. Cada região do Brasil tem seu valor, cada cidade carrega histórias, talentos e modos próprios de existir. Mas falo de Minas porque é o lugar onde estou. E valorizarmo-nos é um posicionamento e uma estratégia importantes para que ninguém nos diminua. Isso vale para uma pessoa e também para um povo inteiro.

Aqui temos chefs de cozinha que ganham destaque em restaurantes nacionais e internacionais, levando sabores e tradições mineiras para lugares distantes. Temos atletas que carregaram o nome do Estado para pódios importantes. Fabiana Claudino, do vôlei, nasceu em Belo Horizonte e cresceu em Santa Luzia. O nadador Teo Laborne também levou Minas para competições internacionais. O triatleta Tiago Vinhal, o técnico e lutador Pedro Novaes e tantos outros nomes mostram que talento não nos falta. O carnaval de Belo Horizonte só é uma potência porque os blocos locais se uniram para torná-lo possível.

Em termos de Educação, somos o berço de grandes nomes e redes de ensino. Recentemente participei do maior evento de educação de Minas Gerais, o Movemente, que reuniu mais de 7 mil educadores no Expominas. No palco havia pessoas de fora do Estado, o que é saudável, mas muitos educadores mineiros comandaram o show. E brilharam com a ajuda da plateia. O encontro com o que vem de fora amplia horizontes e provoca novas reflexões. Muitas vezes eu mesmo sou o estrangeiro em terras diversas. Chego, compartilho experiências e também aprendo muito. Essa troca é boa para quem recebe e para quem chega.

O problema surge quando o olhar estrangeiro passa a valer mais do que o olhar de quem está dentro. Minas tem tradição em celebrar sua cultura, seu sotaque, seu jeito acolhedor de lidar com as pessoas. Ainda assim, não é raro perceber um fascínio exagerado por sobrenomes estrangeiros, como se aquilo que vem de fora carregasse automaticamente mais valor.

Abrir-se ao mundo é necessário. Fechar-se em si mesmo empobrece qualquer sociedade. Mas reconhecer o valor do que nasce em casa fortalece uma comunidade inteira. Quando uma cidade, um estado ou um país aprende a celebrar seus talentos, sua cultura e suas histórias, constrói também uma forma de autoestima coletiva.

Valorizar quem está perto não significa rejeitar quem vem de fora. Significa apenas compreender que aquilo que somos já tem muito valor. E quando um lugar aprende a reconhecer os seus, o mundo passa a reconhecê-lo também.

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