Tio FlávioPalestrante, professor e criador do movimento voluntário Tio Flávio Cultural.

Que tipo de sociedade estamos criando?

Publicado em 30/01/2026 às 07:12.

Dia desses recebi mensagem no WhatsApp de um telefone internacional. A pessoa se apresentou com gentileza, dizendo ser um jovem mineiro, e explicou quem havia passado meu número, uma pessoa querida que conhece o trabalho voluntário que desenvolvo. Assim, fui indicado para, quem sabe, ajudá-lo em uma questão. 

Ele contou que mora nos Estados Unidos, onde estuda e joga futebol, e que, apesar da rotina puxada, já atua como voluntário, dando aulas para um grupo de crianças atípicas. Disse que queria encontrar outras formas de servir, ser útil e retribuir o quanto tem aprendido.

Enquanto lia, pensei na distância curiosa entre o lugar de onde vinha aquela mensagem e o lugar para onde ela me levava em pensamento e emoções. Um adolescente longe do país, com oportunidades que muitos não terão, perguntando como poderia se doar mais, parecia contrariar a lógica dominante de um mundo que treina cedo para a competição mais do que para a partilha.

Marcamos conversa, trocamos ideias, referências, possibilidades, e, quando encerrei, fiquei com a percepção inquietante de que aquela disposição para o cuidado não nasce por acaso; também não brota sozinha, exigindo exemplo e estímulos para crescer.

Essa impressão voltou com força quando, dias depois, o caso ocorrido em Santa Catarina, envolvendo o cãozinho Orelha, tomou conta da mídia. A violência contra um animal indefeso, praticada por adolescentes, não é apenas um episódio isolado de crueldade, mas retrato duro da educação de uma parcela da população que se enxerga acima dos outros.

Parcela pequena, é verdade, mas barulhenta, protegida por combinação de permissividade familiar, privilégios socioeconômicos e prepotência aprendida cedo, sob o argumento silencioso de que algumas regras não se aplicam a todos.

São filhos de pais que confundem amor com ausência de limites, que acreditam estar defendendo quando, na prática, abandonam a tarefa mais difícil de educar. Crescem blindados por sobrenomes, redes de contato, discurso que relativiza o erro quando o erro é deles, e aprendem que contrariá-los é ofensivo, que pedir responsabilidade é perseguição, que assumir consequências é coisa para os outros.

Circulam com a empáfia de quem foi ensinado a desconsiderar pessoas, a tratar relações como territórios de posse, a usar a força da influência para marcar espaço ou reafirmar uma masculinidade frágil, sustentada na agressividade e no desprezo.

Vestem roupas de marca, carregam celulares do ano, falam idiomas com fluência, estudam em escolas inacessíveis para a maioria, instituições que, muitas vezes, sem perceber, se tornam bolhas bem cuidadas, mais preocupadas em manter um padrão de excelência acadêmica do que ajudar na formação de pessoas capazes de conviver fora de seus muros. Esses espaços acabam reforçando a diferença, a exclusão, a ideia de imperturbabilidade. Talvez, por isso, os pais as escolham.

São pessoas que não querem saber o que existe do lado de fora da bolha porque foram treinadas a acreditar que o mundo se organiza em torno delas. Alguns disputam poder econômico desde cedo, chegam e saem protegidos por blindagens visíveis ou simbólicas, mal tocam o chão comum, e tratam os Estados Unidos como casa de praia, até o dia em que se mudam de vez, já preparados para desprezar a própria cultura de origem, como se isso fosse sinal de sofisticação.

Não suportam ser contrariados e aprendem a usar o próprio nome como certificado de garantia e procedência, um salvo-conduto para atravessar situações que exigiriam reflexão e reparação. São garotos hoje, mas amanhã serão os donos dos negócios que nos atendem, os profissionais que nos vendem serviços, os médicos que deveriam acolher nossas vidas. 

Quando olham para o outro, especialmente quem foge do seu padrão, o gesto frequente é submeter ao ridículo, como se o constrangimento fosse disciplina aceitável. Essa lógica escala com facilidade da chacota para a violência, do desprezo simbólico para o ataque concreto, e o caso do cãozinho Orelha se insere nesse percurso que começa muito antes do ato em si.

A cada geração que nasce, há a possibilidade real de ensinar aos garotos que eles não precisam ocupar o papel de dominadores, nem confundir força com brutalidade, nem acreditar que ser homem exige agressividade. Essa desconstrução é urgente, porque só a partir dela se constrói a ideia de que empatia, solidariedade e respeito devem marcar a trajetória de qualquer homem e, em verdade, de qualquer pessoa. 

A educação dentro de casa convive com realidade dura, na qual muitos pais mal sabem quem são, de fato, os próprios filhos, seja por ausência, excesso de trabalho ou desinteresse, mas se apressam em defendê-los diante do indefensável, confundindo proteção com conivência e amor com negação da realidade. 

E a escola, onde entra nessa história? No caso do cachorro Orelha, o silêncio institucional é assustador. Uma escola que se orienta por valores não pode se esconder quando seus estudantes se envolvem em um crime, dentro ou fora de seus muros, porque educar não se restringe ao conteúdo curricular nem termina no portão.

Cabe à instituição se posicionar com clareza, promover reflexão, abrir espaços de escuta, acionar os órgãos competentes quando necessário e, sobretudo, assumir papel formador, ajudando crianças e jovens a compreenderem a gravidade dos atos, as consequências sociais e éticas do que fazem e o compromisso que se espera deles como cidadãos.

Volto, então, à mensagem daquele adolescente mineiro, longe de casa, querendo fazer mais pelo outro, e percebo que entre ele e os garotos que maltratam um animal existe um abismo construído por escolhas educativas muito distintas. Nada garante quem alguém será, mas tudo indica que o modo como cuidamos, limitamos e responsabilizamos nossos jovens faz diferença. A pergunta que fica não é apenas que adultos eles se tornarão, mas que tipo de sociedade estamos, todos nós, ajudando a formar a partir do que toleramos, do que silenciamos ou do que decidimos enfrentar, realizar, cocriar?

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