
Um amigo veio passar alguns dias em Belo Horizonte e, juntos, fomos fazer algo bem simples: caminhar pela cidade. Andamos numa segunda-feira, na véspera de feriado e também no próprio feriado, passando pelo Centro, Lourdes, Funcionários e Savassi. A ideia era mostrar um pouco da beleza desta parte da capital, mas a caminhada acabou revelando outra coisa.
Em determinado momento começamos a olhar mais para o chão do que para os prédios. As calçadas estão em estado de abandono: muitas estão encardidas, irregulares, cheias de buracos ou ocupadas por obstáculos improvisados. Em alguns trechos é preciso caminhar com cuidado constante para não tropeçar. Em outros, simplesmente não há passagem possível. Quem usa cadeira de rodas ou tem deficiência visual possivelmente é impedido de fazer um caminho como esse.
Fiquei pensando em uma velha propaganda de biscoito que perguntava se o Tostines vendia mais porque era fresquinho ou era fresquinho porque vendia mais. Algo semelhante parece ocorrer com o espaço urbano. A cidade se deteriora porque as pessoas não colaboram ou as pessoas deixam de colaborar porque percebem que o espaço público já está abandonado?
Nos canteiros e nas praças, a sensação de descuido também aparece. Trechos da Savassi e da Praça da Liberdade apresentam falhas de grama e mato alto. São áreas visitadas por turistas e frequentadas por moradores, mas a manutenção não acompanha a importância desses lugares. E há, também, excrementos de animais por muitos lados.
Um fenômeno social das grandes cidades também escancara nossa necessidade de olhar com cuidado para a população de rua. O tema é complexo e envolve muitas dimensões sociais, que devem ser tratadas com responsabilidade.
Responsabilidade pública existe e precisa ser cobrada. A prefeitura tem obrigação de cuidar da cidade e os vereadores têm a função de fiscalizar e pressionar por soluções, e nós precisamos que os parlamentares sejam mais incisivos nisso. Há coisas que são elementos básicos de gestão urbana.
A população também tem que entender seu papel. Na esquina da rua Guajajaras com a avenida João Pinheiro, em frente à Faculdade de Direito da UFMG, vi grades de ventiladores descartadas diretamente na rua. Alguém simplesmente decidiu transformá-las em lixo público, inclusive sem acondicionamento.
O cuidado com o básico não é feito. Seria pedir demais que os detalhes fossem respeitados, como uma placa oficial afixada na Praça Diogo de Vasconcelos, totalmente torta? Pode parecer besteira, mas um espaço agradável para quem vive e visita gera saúde e recursos, vindos do turismo, além de imagem para a cidade. Vi tantos espaços que, se tivessem canteiros bem cuidados, seriam pontos de registros fotográficos. Mas, pelo contrário, dão medo.
Belo Horizonte não se resume à zona sul nem aos cartões-postais. A cidade é muito maior do que isso e precisa de atenção em todas as regiões. Calçadas transitáveis, ruas limpas e praças bem cuidadas não são luxo urbano, são condições mínimas para uma cidade funcionar. Isso sem falar em saúde, segurança, educação, mobilidade, assistência social.
Quem olha por Belo Horizonte? Enquanto a pergunta fica sem resposta, a cidade segue acumulando sinais de abandono diante dos olhos de quem passa. E de quem fica.