
Conheço pessoas de noventa anos que levam mais tempo para atravessar um corredor do que eu levo para atravessar uma avenida inteira. Não é falta de disposição, é apenas o corpo avisando que já percorreu um longo caminho. Com o passar dos anos, a vida vai diminuindo de tamanho, não porque se torne menos importante, mas porque algumas coisas passam a ocupar um espaço muito maior. Uma cadeira preferida, uma janela conhecida, o lugar à mesa, o banco da praça, o trajeto até o jardim, o rosto de quem cumprimenta pelo nome.
Talvez seja por isso que uma notícia vinda da Lapa, bairro tradicional da zona oeste de São Paulo, tenha me deixado pensando durante dias. Não pelas disputas jurídicas, nem pelas discussões sobre zoneamento urbano, mas pela mensagem que parecia ecoar por trás de tudo aquilo: queremos os idosos fora daqui.
O assunto envolve instituições de longa permanência para idosos instaladas em antigos casarões da região. Há anos existe uma disputa entre essas casas e parte dos moradores do bairro. Nas últimas semanas, a discussão ganhou um novo capítulo. Com o apoio de alguns políticos e lideranças locais, entre elas uma instrutora de Pilates na faixa dos cinquenta anos e presidente de uma associação de moradores, avançaram ações que resultaram na cassação de alvarás de algumas instituições. A consequência pode ser a retirada de dezenas de idosos dos lugares onde vivem atualmente.
Em meio às reportagens, uma expressão chamou minha atenção: os idosos poderiam ser levados para outro lugar, "longe dali". Passei mais tempo pensando nessas duas palavras do que em toda a discussão sobre legislação, zoneamento ou ocupação urbana. "Longe dali" não tem nada de extraordinário. Milhares de pessoas mudam de cidade, de bairro ou de casa todos os dias. O que causa desconforto não é a expressão em si, mas a facilidade com que ela pode ser utilizada para definir o destino de pessoas que passaram anos construindo vínculos, acumulando lembranças, criando rotinas e aprendendo a chamar determinado lugar de casa. Nessas circunstâncias, ela deixa de ser apenas uma indicação geográfica e passa a significar o rompimento de vínculos que levaram anos para ser construídos.
O curioso é que a velhice nos ensina justamente o valor da permanência. Quando somos jovens, mudamos de endereço, de emprego, de cidade e até de amigos com relativa facilidade. Os anos passam e aquilo que parecia pequeno ganha importância. O quarto conhecido oferece segurança. A rotina oferece tranquilidade. Os rostos familiares ajudam a organizar o mundo.
Quem convive com idosos sabe disso e conhece uma senhora que gosta de sentar sempre na mesma cadeira ou usar os mesmos talheres e xícara, um senhor que decorou o caminho até o refeitório, alguém que espera todos os dias pelo mesmo horário de visita ou alguém que precisou de meses para se acostumar com aquele ambiente e que agora escuta que poderá ser levado para outro lugar porque sua presença passou a incomodar.
É impossível não pensar em como algumas discussões conseguem apagar as pessoas que estão no centro delas. Fala-se dos imóveis, dos alvarás, da valorização da região e do perfil do bairro. Em determinado momento, os idosos desaparecem da conversa e restam apenas os prédios.
Marco Aurélio escreveu, há quase dois mil anos, que aquilo que não é bom para a colmeia não pode ser bom para a abelha. A frase continua atual porque raramente temos dificuldade para enxergar aquilo que nos favorece. O problema surge quando uma abelha passa a acreditar que toda a colmeia deve se adaptar aos seus interesses.
Chama a atenção que uma das vozes mais atuantes desse movimento seja justamente uma mulher que já atravessou a marca dos cinquenta anos. Não por causa dela, mas porque existe algo profundamente humano nessa cena: o envelhecimento costuma ser sempre um acontecimento dos outros. Aos cinquenta, olhamos para quem tem oitenta. Aos sessenta, olhamos para quem tem noventa. Quase sempre encontramos alguém mais velho para nos convencer de que ainda não chegamos lá.
Enquanto a discussão continua na Lapa, imagino uma senhora olhando pela janela que vê todos os dias ou um senhor caminhando devagar pelo corredor que já aprendeu a chamar de seu. Depois de uma vida inteira de mudanças, despedidas, perdas e recomeços, eles aguardam que alguém decida se podem continuar exatamente onde estão.