Tio FlávioPalestrante, professor e criador do movimento voluntário Tio Flávio Cultural.

Santa Casa, Santo Bolinho e a humanidade das mães

Publicado em 17/07/2026 às 06:00.


Depois de um início de tarde de aprendizado no World Café 2026, promovido pela CDM Projetos Sociais de Alto Impacto e pela Comunidade de Voluntariado Corporativo (CMVC), saí com a jornalista Silvia Castro para acompanhar um evento bem legal: os famosos "bolinhos", que colorem as ruas de Belo Horizonte, agora também estão na Santa Casa BH. 

Além de estamparem paredes da instituição, a artista Raquel Bolinho, criadora desse personagem que se tornou um ícone da arte urbana mineira, passa a ter produtos licenciados cuja renda será integralmente destinada ao hospital. São canecas, meias, camisetas e um monte de outras coisas legais que serão vendidas, inclusive, nas lojas da Made in BH, marca que celebra nossa mineiridade. Mais uma daquelas ideias maravilhosas que nascem desse nosso povo criativo e generoso.

O Projeto Santo Bolinho une arte, humanização e solidariedade para arrecadar recursos destinados ao fortalecimento dos serviços de saúde oferecidos pela Santa Casa. O embaixador da iniciativa, o querido Maurilo Andréas, falou emocionado sobre a aproximação entre Raquel Bolinho e a instituição. A primeira intervenção foi inaugurada no Centro de Autismo, com um mural exclusivo da artista.

Antes, porém, fomos conhecer as dependências do Centro de Autismo. Crianças em atendimento, espaços bonitos, profissionais solícitos. Foi nesse cenário que passamos pela recepção, e uma mãe observava o filho, serelepe, correndo de um lado para o outro. Ela estava visivelmente cansada, esgotada. Ela elogiou o espaço, mas me fisgou com um pedido silencioso de socorro. 

Depois soltou uma frase que, naquele momento, não compreendi em toda a sua dimensão: "Vocês tinham que montar uma coisa dessas para as mães também." Sorri e respondi que seria ótimo. Antes de nos despedirmos, ela comentou que não era apenas aquele filho autista. Eram os dois filhos. Só mais tarde me dei conta do que aquela mulher estava realmente dizendo.

Embora não existam estatísticas nacionais oficiais sobre o abandono paterno em famílias atípicas, diferentes estudos e levantamentos apontam que esse fenômeno é frequente. O índice de 78%, amplamente divulgado por organizações da sociedade civil, evidencia a percepção da gravidade do problema, enquanto pesquisas acadêmicas confirmam a sobrecarga materna e a menor participação paterna nos cuidados de crianças com deficiência.

Não sei qual é o caso daquela mãe. Ali, com certeza, sua família é bem atendida, mas, depois dali, é ela quem vai embarcar num ônibus com os dois filhos. É ela quem vai chegar em casa, cuidar de cada um deles, pensar no dia seguinte, segurar a bronca quando as crises vierem, deles e dela. É ela quem vai deitar imaginando o futuro das crianças em um mundo no qual elas continuarão vivendo quando ela já não estiver mais aqui.

Minutos depois, já no terraço, as pessoas conversavam antes da apresentação do mural. Em clima de brincadeira, fomos convidados a gravar um recado para os personagens. Até a própria Raquel, criadora deles, entrou na diversão. Foi quando duas senhoras passaram por mim, e uma delas disse, sorrindo: "Sou a avó dos bolinhos." Era Enilce, a Nika, mãe da artista, acompanhada da Gilse Couto, madrinha da Raquel. Vieram de Itabira para prestigiar a filha e a Santa Casa. "Foram quatro horas de viagem", contou Nika. Conversamos um pouco e, em determinado momento, ela puxou a manga comprida da blusa para mostrar uma tatuagem de um bolinho no braço. 

Fiquei encantado com aquela cena. Que maravilha ver uma mãe apoiando a filha nas escolhas, na arte e nos projetos sociais aos quais ela se dedica. O orgulho transbordava sem precisar de discurso. Nika ainda me contou que, em Itabira, existe uma estátua do Bolinho Drummonzinho, com três metros e meio de altura, instalada em uma das praças da cidade. Espero muito que a população e o poder público continuem cuidando desse patrimônio artístico.

Voltei para casa pensando que, naquela tarde, encontrei fragmentos da história de duas mães. Entre uma e outra estavam os bolinhos, lembrando que a arte também é uma forma de cuidar. Parabéns à Santa Casa BH, que tem construído uma comunicação sensível e uma relação cada vez mais bonita com a comunidade.

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