Tio FlávioPalestrante, professor e criador do movimento voluntário Tio Flávio Cultural.

Sobre atravessar tempos duros sem se perder completamente

Publicado em 06/02/2026 às 16:14.

Tem dia que a gente olha para a frente e não vê um rumo. Entra nas redes sociais, passa os olhos pelos portais de notícias, escuta conversas ao redor e surge a sensação de que o mundo que existe não foi feito para nos caber dentro dele, muito menos para trazê-lo para dentro de nós. 

Não é, necessariamente, um pensamento de desistência, mas um desânimo silencioso, uma fadiga que não grita, mas pesa, que se instala assim, do nada, e faz com que até tarefas simples pareçam um caminho pedregoso.

Muitas pessoas vivem assim hoje, com ansiedade, com crises de pânico, com depressão, com uma tristeza que não tem um nome fácil, e isso não é frescura, não é falta de fé, não é fraqueza de caráter, é gente vivendo em um tempo acelerado, barulhento, competitivo e, muitas vezes, cruel. Admitir isso é um gesto de honestidade, porque fingir que está tudo bem quando não está só aumenta a solidão de quem já se sente só.

O problema é que, junto com o sofrimento real, cresce em nosso entorno uma fala rasa, discursos que simplificam demais dores complexas, frases prontas que prometem cura rápida, gente dizendo que basta pensar positivo, que basta querer, que basta acreditar, como se a mente humana fosse um botão de liga e desliga, como se a vida obedecesse a slogans. 

Quando, por exemplo, um líder religioso diz, em um evento com jovens, que o que eles escutam nas escolas não deve ser levado em consideração, algo em mim se inquieta profundamente, não apenas pelo conteúdo da fala, mas pela irresponsabilidade que ela carrega, porque palavra constrói, palavra destrói, palavra salva, palavra adoece, e quem ocupa qualquer espaço de influência precisa lembrar disso todos os dias, se não for desonesto.

E não é só esse tipo de discurso que machuca, existem também as ofensas gratuitas nas redes sociais, pessoas que não se conhecem e se atacam como se fossem inimigas de guerra, existe a perseguição velada ou explícita, existe o prazer estranho de humilhar, e diante disso, muitas vezes, a gente tenta entender não o que fez de errado, mas o que falta dentro do outro, porque só um vazio muito grande explica alguém precisar da dor alheia para se sentir vivo, e a pergunta que eu faço não é como aceitar viver assim, mas como atravessar esse tempo sem se tornar igual a ele.

Em “A felicidade, desesperadamente”, o filósofo André Comte-Sponville propõe algo que, à primeira vista, parece desconfortável, ao sugerir que o desespero não é exatamente o oposto da esperança, mas a recusa em depositar todas as fichas nela, como se a esperança sozinha fosse resolver tudo, e isso não significa abandonar a esperança, mas não transformá-la em mero acessório. É um convite a deixar de esperar passivamente e começar a agir, mesmo cansado, mesmo com medo, mesmo sem garantias. 

Gosto de um provérbio africano que lembra que enquanto se reza é preciso ir fazendo, porque desejar, sonhar e confiar são importantes, mas levantar da cama, tomar banho, responder uma mensagem, marcar uma consulta, pedir ajuda e dar um passo pequeno também são formas muito concretas de cuidar da vida.

A filosofia antiga já dizia algo semelhante, e Aristóteles afirmava que as virtudes são filhas da prática, ninguém nasce corajoso, paciente ou generoso, a gente se torna, a gente treina, a gente erra e tenta de novo, e em tempos de tantos adoecimentos emocionais, talvez a grande reflexão não seja como mudar o mundo, mas como não se deixar endurecer por ele, como não colaborar com a lógica da brutalidade, sem fechar os olhos para a injustiça, sem se conformar, sem se tornar indiferente.

O que tenho buscado fazer é olhar para trás, não para morar no passado, mas para entender de onde vim, lembrar de quem me ajudou quando eu era menor, de conversas que me salvaram sem que a outra pessoa soubesse, de momentos em que eu também pensei que não daria conta e, ainda assim, dei, e isso me ajuda a acreditar no provérbio africano que diz que a chuva lava a pele do leopardo, mas não remove as suas pintas, porque a dor muda a gente, as perdas mudam a gente, os tombos mudam a gente, mas nem tudo precisa nos deformar.

Friedrich Nietzsche escreveu que “tudo o que é pesado pode se tornar leve, que todo corpo pode se tornar dançarino, que todo espírito pode se tornar pássaro”, não como um romantismo vazio, mas como um desejo de transformação, não de eliminar o peso, se isso não for possível, mas de aprender a carregá-lo de outro jeito, e o psiquiatra José Ângelo Gaiarsa dizia que o mal é raridade, e gosto de pensar que ele estivesse falando menos das manchetes que invadem nossos dias e mais das pessoas comuns, da senhora que segura a porta do elevador, do rapaz que ajuda um desconhecido a empurrar o carro, da professora que compra material para um aluno, do amigo que manda mensagem perguntando se está tudo bem, pessoas que não viralizam, não viram tendência, mas sustentam o mundo.

Para quem vive ansiedade, pânico ou depressão, ouvir que é preciso ser forte pode soar cruel. Mas entendi, também, que força, nesses casos, não é levantar grandes bandeiras, é continuar existindo, é aceitar ajuda, é admitir que não está bem, é não desistir de si, porque não existe fórmula mágica, não existe atalho emocional, existe caminho, e caminho quase sempre é feito de dias bons e dias ruins, de recaídas, de avanços discretos, de silêncios e de pequenas vitórias que só quem vive sabe o tamanho que têm.

Esperança, então, talvez não seja acreditar que tudo vai dar certo, mas a decisão diária de não fechar o coração, a escolha de continuar tentando, o gesto de não se tornar indiferente, porque apesar do barulho, apesar do cansaço, apesar da dureza dos tempos, ainda existe gente boa, ainda existe afeto, ainda existe possibilidade de encontro, ainda existe vida pulsando em lugares que os algoritmos não mostram, e isso, por si só, já é um motivo legítimo para continuar.

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