Tio FlávioPalestrante, professor e criador do movimento voluntário Tio Flávio Cultural.

Sonhos, educação e novos caminhos

Publicado em 15/05/2026 às 06:00.


Quando cheguei àquela escola municipal em São Roque de Minas, algumas crianças do turno da manhã já estavam sentadas numa fila de cadeiras, no pátio. Elas esperavam a hora de apresentar seus sonhos a um grupo de diretoras e diretores de escolas municipais de Divinópolis, que estavam na cidade, numa missão com o Sebrae Minas, para conhecer práticas de empreendedorismo, educação financeira e cidadania desenvolvidas por meio de uma parceria entre as escolas, a Prefeitura Municipal e a cooperativa de crédito Sicoob Sarom.

Estamos acostumados a perguntar às crianças o que elas querem ser quando crescerem, mas raramente paramos para ouvi-las de verdade. Naquele dia, elas tinham microfone, plateia e atenção. E perceber isso mexe com qualquer pessoa que já tenha passado por uma sala de aula.

As aulas de empreendedorismo entraram na grade das escolas e abrangem alunos da rede pública e também da Cooperativa Educacional Sarom - CES. Mas o mais interessante não é o discurso sobre negócios ou dinheiro. O foco parece ser outro: fazer a criança compreender que sua vida pode ter direção, escolha, possibilidade. O sonho não é tratado como fantasia distante, mas como algo que necessita da construção de um caminho, preparo e responsabilidade.

Uma menina contou que deseja ser masterchef por causa da avó, cozinheira. Falava da avó com orgulho, como quem herdou um afeto antes mesmo de herdar uma profissão. Um menino queria ser cafeicultor porque acompanha o pai desde pequeno. Outros citaram desenho, agronomia, futebol. Ninguém ria do sonho do outro.

Uma das meninas disse que o irmão dela chegava em casa falando que havia sido escolhido para dar “palestra”. A supervisora explicou que eles levam a sério aquele momento, por isso dizem entre si que darão palestra para os visitantes. A criança também quer sentir que sua experiência importa.

Depois das apresentações, fui conhecer outros espaços da Escola Municipal Guia Lopes. Já era o fim da tarde, e as crianças de quatro a seis anos jantavam antes de irem embora. Brinquei, perguntando se eu também poderia jantar. Uma delas respondeu rapidamente que a comida era só para criança. Eu disse que ainda era criança, e algumas riram e começaram a perguntar minha idade. Em poucos minutos, a conversa interrompeu o jantar. Percebendo isso, resolvi me despedir para não atrapalhar mais, foi quando as crianças vieram correndo me abraçar.

No dia anterior, em Lagoa da Prata, um pai havia me procurado depois de uma palestra. Falou da preocupação com os filhos adolescentes. Disse que sente os meninos se afastando aos poucos, entrando num mundo próprio, cheio de códigos, músicas, expressões e referências que mudam numa velocidade absurda. Contou, rindo e preocupado ao mesmo tempo, que até o significado de “six seven” (termo aleatório) ele foi pesquisar para tentar entender a linguagem deles.

Enquanto ele falava, percebi que muitos pais vivem uma espécie de luto silencioso: a infância é o tempo em que são heróis absolutos. Depois, chega a adolescência com sua necessidade quase biológica de contestar, afastar-se, experimentar o mundo sem a supervisão constante dos adultos. O filho que antes corria para mostrar um desenho passa a fechar a porta do quarto. Isso machuca famílias. E machuca porque quase ninguém prepara os pais para essa mudança.

Só que crescer também exige algum tipo de distanciamento. O adolescente precisa descobrir quem é sem repetir totalmente os pais. Precisa experimentar pertencimentos, testar ideias, encontrar novos espelhos. O problema não está no afastamento, mas aparece quando não existe mais para onde voltar.

Na escola de São Roque de Minas, as crianças falavam sobre sonhos. Em Lagoa da Prata, um pai falava sobre o medo de perder os filhos para o mundo. No fundo, os dois encontros tratavam da mesma coisa: amor.
Uma frase atribuída a Victor Hugo traduz bem tudo isso: “Mude suas opiniões, mantenha seus princípios. Troque suas folhas, mantenha suas raízes”.

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