Tio FlávioPalestrante, professor e criador do movimento voluntário Tio Flávio Cultural.

Voluntariado: presença, cuidado e compromisso

Publicado em 20/03/2026 às 06:00.

Alguns mundos novos se abrem quando decidimos partir para o voluntariado. Coisas muito próprias de determinados grupos só podem ser conhecidas quando nos dispomos a conhecer com empatia e nos tornamos disponíveis para aprender. Costumo lembrar de duas situações que me ensinaram isso de forma definitiva.

A primeira aconteceu em uma noite fria em São Paulo. Nas redes sociais, ditos “cidadãos” criticavam pessoas em situação de rua que passaram a dormir dentro de agências bancárias, afirmando que buscavam o conforto do ar-condicionado. Num frio intenso, alguém realmente acredita nisso? Ao conhecer de perto a realidade, entendemos que quem dorme ali busca, antes de tudo, alguma sensação de segurança. As câmeras oferecem um mínimo de proteção diante de um mundo onde há quem seja capaz de ferir ou até incendiar alguém, por vezes tratando isso como entretenimento. O julgamento apressado revela muito mais sobre quem observa do que sobre quem vive aquela realidade.

A segunda situação ocorreu quando levei um jogo de adedanha para um abrigo de adolescentes. Aos poucos, eles foram deixando a mesa. Fiquei chateado, chamei todos para conversar, e então veio a verdade: muitos não sabiam ler nem escrever e sentiram vergonha de dizer. O problema nunca foi o jogo, mas a minha falta de leitura daquele contexto.

O voluntariado nos permite atravessar fronteiras invisíveis e entrar em realidades que desconhecemos. Mas esse movimento exige empatia e responsabilidade. Não basta querer ajudar, é preciso aprender a fazê-lo.

Didaticamente, podemos falar de diferentes formas de voluntariado: o assistencialismo, voltado à sobrevivência imediata; o de catástrofes, que mobiliza em momentos críticos; o de vínculos, em que a presença contínua é a maior oferta; o pontual, sem continuidade; o de transformação, que abre caminhos de crescimento; o corporativo, apoiado por organizações; e o de causas, que reúne pessoas em torno de uma luta específica. Todos têm dois grandes protagonistas: quem faz e é profundamente impactado pelo que faz, e quem recebe, que também oferece algo, muitas vezes sem saber.

Em qualquer modalidade, alguns cuidados são fundamentais. O primeiro é compreender que bom senso não é senso comum. É necessário preparar, alinhar e orientar voluntários antes de qualquer ação. Garantir identificação clara do grupo também é importante. Em certa ocasião, um casal entrou junto com voluntários em um lar de idosos. Mais tarde, descobriu-se que haviam furtado pertences. Não eram voluntários, mas aproveitaram a ausência de identificação e se juntaram ao grupo.

Outro ponto essencial é a presença verdadeira. Escolher alguém para registrar a ação enquanto os demais mantêm os celulares guardados faz diferença. Dividir atenção entre pessoas e telas pode ser interpretado, por quem já viveu abandono, como mais uma forma de descaso.

Há também quem queira ajudar e o faça, sem má intenção, mas acabe atrapalhando mais do que ajudando. Um idoso que lamenta uma dor e o voluntário prontamente oferece um remédio que carrega na bolsa; a ação que não tem fim, desconsiderando que a instituição tem sua rotina e não pode se desdobrar para atender a um voluntário que deseja prolongar atividades.

Também é preciso respeitar a privacidade, preservando os espaços de cada pessoa e evitando entrar, ainda mais sem acompanhamento de funcionários, em quartos e áreas reservadas. Por questões legais e éticas, pessoas atendidas não devem ser expostas. Muitas vezes, a intenção de mostrar uma boa ação invade e fere quem já se encontra em situação de vulnerabilidade.

Por fim, o compromisso. O voluntariado não deve ser iniciado por impulso, mas como uma escolha consciente. Ao aceitar participar, alguém passa a contar com você. Quando essa decisão não cabe na rotina, corre-se o risco de agir mais para aliviar a própria consciência do que para sustentar um cuidado real.

O voluntariado amplia o nosso olhar, nos conecta a histórias que nunca imaginaríamos e nos transforma silenciosamente.

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