Descrença na política pode fazer Minas superar abstenção das últimas eleições
Cientista político relaciona afastamento dos eleitores à falta de confiança nas instituições e avalia possíveis reflexos no resultado das urnas

Segundo maior colégio eleitoral do país com 16,2 milhões de pessoas aptas a votar, Minas registrou 22% de abstenção no 1º turno das últimas eleições presidenciais, em 2022. Na prática, significa que um a cada cinco eleitores não foi às urnas. Na véspera do primeiro dia de votação, neste domingo (4), fica a dúvida: o que esperar para a disputa em 2026?
Ao Hoje em Dia, o sociólogo, cientista político e presidente do Instituto Cultiva, Rudá Ricci, afirma que a abstenção está ligada à falta de confiança do eleitor em relação ao sistema eleitoral e às instituições. “É uma descrença em relação aos políticos, ao Judiciário, é uma descrença total”.
Segundo o especialista, um dos motivos para este distanciamento entre o eleitor e a política é a dificuldade dos candidatos em dialogar com quem vota e está indeciso. Ele aponta que o grupo é composto majoritariamente por mulheres, público que vota observando o impacto das políticas públicas no dia a dia.
Para Rudá, neste cenário, as abstenções favorecem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição. “O eleitorado do Lula é o mais fiel de todos, então se aumentar a abstenção vai ser dos outros”, diz o especialista. Já os votos nulos ou em branco são considerados inválidos. “Eles simplesmente não existem do ponto de vista eleitoral. É como se uma pessoa deixasse de ser cidadão”, explica Rudá.
'Um terço do país dizendo não à eleição'
O sociólogo afirma que, caso seja mantida a tendência das últimas eleições, seriam 25% dos eleitores abrindo mão do voto - cerca de 20% se abstendo e 5% de votos branco/nulo. “É um terço do país dizendo não à eleição”, diz. De acordo com o especialista, este cenário favorece movimentações políticas pautadas no ressentimento e na rejeição.
“Eu tenho medo de que o eleito esteja mais fraco politicamente depois da eleição do que o derrotado nas urnas”, diz. “O derrotado sai com a principal oposição a esse eleito e vai conseguir arrebanhar a frustração e o ressentimento, ele vai ter mais força política do que o eleito. Isso é o fim da democracia”.
Para o especialista, a solução para o impasse nas urnas passa não passa apenas pelo incentivo ao voto, mas pela criação de condições para que haja mais votos conscientes. “Votar em alguém é uma procuração que eu passo para que essa pessoa me representa. Só que se eu voto por obrigação, não há essa procuração de fato.”
*Estagiária, sob supervisão de Renato Fonseca
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