Kalil 'perde' 3,4 milhões de votos em 4 anos; especialistas explicam debandada de eleitores
Falta de presença no interior e de força nas redes sociais ajudam a explicar queda no desempenho do ex-prefeito

Alexandre Kalil (PDT) "perdeu" 3,4 milhões de votos na comparação entre os desempenhos nas duas últimas disputas pelo Governo de Minas, em 2022 e 2026. Neste ano, o ex-prefeito de Belo Horizonte recebeu 403 mil, 3,54% dos válidos, contra 3,8 milhões, ou 35,08%, há quatro anos. Cientistas políticos avaliam que o candidato teve dificuldades para ampliar a presença no interior, para adaptar a comunicação às novas formas de fazer política e para compreender mudanças no comportamento do eleitor mineiro, além da força mostrada por Cleitinho Azevedo (Republicanos)
Em 2022, Kalil foi o principal adversário de Romeu Zema (Novo) e terminou a disputa em segundo lugar. Na ocasião, o então governador foi reeleito no primeiro turno com 6 milhões de votos - 56,18% dos válidos. Neste ano, Kalil ficou em quinto lugar, atrás de Cleitinho, Patrus Ananias (PT), Flávio Roscoe (PL) e Mateus Simões (PSD). Cleitinho venceu já no primeiro turno, com 55,4% dos votos válidos.
'Fator Cleitinho pesa'
Apesar da diferença expressiva, a cientista política Luciana Santana pondera que uma comparação direta entre as duas eleições não é suficiente para explicar o desempenho de Kalil. Para ela, o cenário de 2026 trouxe novos elementos para a decisão do eleitor, principalmente a força alcançada por Cleitinho.
“Essa eleição não dá para comparar com 2022, porque teve outros elementos que entraram na equação do eleitor. E o fenômeno Cleitinho talvez seja o melhor de ser explicado, muito menos o Kalil e muito mais o Cleitinho”, avalia Luciana.
Na análise da especialista, o governador eleito conseguiu estabelecer uma comunicação mais próxima das experiências da população, enquanto adversários não acompanharam da mesma maneira a mudança no comportamento eleitoral. “Ele trouxe uma linguagem conectada, falando a linguagem do cotidiano, o que as pessoas sentem na pele, de ausências, de necessidades”, afirma.
Para ela, a dificuldade não foi exclusiva de Kalil. Outros nomes também teriam encontrado obstáculos. “Kalil, Patrus, Gabriel Azevedo e outros nomes não conseguiram entender esse novo comportamento do eleitor mineiro. Usaram linguagens desconectadas que não necessariamente favoreciam um alinhamento eleitoral consistente ao longo de todo o processo”, analisa.
A ascensão de candidaturas identificadas com renovação e que utilizam intensamente as redes sociais é reforçada pelo cientista político Camilo Aggio. Segundo ele, Cleitinho é o principal exemplo desse fenômeno. Para ele, o republicano conseguiu transitar melhor nos novos espaços de comunicação política do que os adversários. “Houve uma onda muito forte de uma direita, de um voto aparentemente por renovação. E a ideia de renovação talvez esteja no cerne da explicação da eleição do Cleitinho já no primeiro turno”, avalia.
Segundo ele, a presença constante nas plataformas digitais contribuiu para consolidar essa percepção. “É um sujeito que transita muito melhor do que os seus adversários e que representa, talvez, uma nova perspectiva de renovação”, diz.
Falta de força no interior
Camilo Aggio ressalta que não há uma causa única para a perda de mais de 3 milhões de votos de Kalil, mas aponta a falta de uma atuação mais capilarizada pelo interior de Minas como uma das hipóteses.
Segundo ele, a ausência de alianças, palanques e maior inserção na política regional dificultou a transformação da popularidade construída por Kalil em Belo Horizonte em uma base estadual. “Não houve realmente um trabalho mais capilarizado do Kalil no interior do Estado”, afirma.
Para Aggio, o desempenho também mostra os limites da força eleitoral construída pelo ex-prefeito na capital. Kalil comandou Belo Horizonte entre 2017 e 2022. Na eleição estadual daquele ano, a metrópole foi justamente o local que mais lhe rendeu votos: foram 598.955, aproximadamente 15,7% de toda a votação obtida pelo candidato em Minas.
‘Campanha permanente’
A presença digital também aparece na análise sobre o que Kalil precisaria mudar caso decida continuar disputando cargos eletivos. Para Aggio, a dinâmica atual não permite que um candidato comece a construir a própria imagem apenas às vésperas de uma eleição. O trabalho, segundo ele, precisa ocorrer durante todo o intervalo entre os pleitos.
Ele cita Cleitinho e Nikolas Ferreira como políticos que mantêm essa estratégia de forma contínua. “Muito da política de base hoje se faz por meio das redes digitais, nesses espaços em que as pessoas se encontram para compartilhar informações, consumir informações, compartilhar opiniões e formar opiniões.”
Capital político enfraquecido
Questionado se o resultado poderia indicar um enfraquecimento de Kalil, Aggio considera que a votação deste domingo é uma evidência objetiva da redução do capital político do ex-prefeito:
“Indicar, não. Demonstra, comprova. Sem dúvida alguma, o voto é um índice fundamental para a gente medir o capital político de alguém. O capital político certamente dele diminuiu”.
O futuro de Kalil, porém, dependerá do caminho que o próprio político decidir seguir. Para Aggio, caso queira novamente disputar o Palácio Tiradentes, será necessário ampliar a presença fora de Belo Horizonte e construir uma marca efetivamente estadual.
Outra possibilidade apontada pelo cientista político seria um retorno à política da capital. “Talvez um caminho também seja a volta para a Prefeitura de Belo Horizonte, daqui a dois anos. Não sei. Tem que ver o que o Kalil quer”, conclui.
Leia também: