
O consumo abusivo de bebidas alcoólicas aumentou entre adultos que vivem nas capitais brasileiras e deve seguir tendência de alta nos próximos anos -e o público feminino responde por parcela significativa dessa alta. Pesquisa realizada pela Universidade Federal de Minas (UFMG) mostra que a proporção praticamente dobrou, passando de 7,8% em 2006 para 15,2% em 2023.
O crescimento entre as mulheres foi registrado em 23 capitais brasileiras, com maior prevalência observada em estados como Mato Grosso do Sul, Bahia e Sergipe. Em Belo Horizonte, a prevalência passou de 12,1% em 2006 para 18% no mesmo período. Entre os homens, o índice já era mais elevado no início da série e apresentou variação menor, passando de 27,1% para 27,7% no mesmo período.
De acordo com o estudo “Tendências temporais no consumo abusivo de álcool e suas projeções para 2030 nas capitais brasileiras”, na soma das capitais o índice de consumo abusivo passou de 15,7% para 20,8% no recorte analisado. A análise foi feita com base em informações do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) e reuniu dados de mais de 800 mil adultos com 18 anos ou mais, residentes de todas as capitais do país e do Distrito Federal.
O que é considerado consumo abusivo de álcool
Segundo a coordenadora da pesquisa, a professora Deborah Carvalho Malta, do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem da UFMG, o consumo abusivo de álcool é caracterizado pela ingestão de cinco ou mais doses para homens e quatro ou mais para mulheres em um curto período de tempo.
Ela destaca que o álcool é uma substância tóxica, psicoativa e capaz de causar dependência, e que fatores culturais e sociais contribuem para que o consumo excessivo seja frequentemente naturalizado.
“Em muitas sociedades, as bebidas alcoólicas são parte frequente das interações sociais, e é fácil ignorar ou desconsiderar os danos sociais e à saúde causados pelo seu consumo. Devemos reconhecer que o consumo de álcool está enraizado em práticas culturais, sociais e econômicas, o que exige abordagens de controle mais integradas e multidimensionais”, afirma a pesquisadora.
Tendência de alta
O estudo também identificou aumento do consumo abusivo em diferentes grupos da população. Entre pessoas com 12 anos ou mais de escolaridade, por exemplo, a prevalência subiu de 18,1% para 24% no período analisado.
A pesquisa ainda apontou crescimento entre pessoas de diferentes raças e cores de pele:
- branca: de 14,7% para 21%
- negra: de 18,8% para 23,2%
- parda: de 16,1% para 20,3%
Por região, houve aumento da prevalência no Centro-Oeste, Nordeste, Sudeste e Sul.
Meta global distante
Os resultados indicam que o Brasil pode não alcançar a meta internacional estabelecida pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), que prevê a redução de 10% no consumo de álcool entre 2015 e 2030.
Segundo as projeções do estudo, caso a tendência atual continue, o consumo abusivo poderá chegar a 22,2% da população adulta em 2030, acima do limite esperado para atingir a meta global.
Para Deborah Malta, políticas públicas mais amplas são necessárias para reverter o cenário. “É necessário fortalecer a restrição ao acesso a bebidas alcoólicas, aumentar a proibição de publicidade, promoção e patrocínio desses produtos, bem como intensificar o monitoramento das ações já implementadas”, afirma.
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