Estudo da UFMG aponta bactérias do leite materno como aliadas no combate à obesidade
Pesquisa realizada em hospitais de BH identificou microrganismos com potencial para prevenir ganho do peso e reduzir compulsão alimentar

Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) identificaram bactérias presentes no leite materno que podem ajudar na prevenção e no tratamento da obesidade, além de contribuir para a redução da compulsão alimentar. A descoberta resultou em uma patente depositada pela instituição e é fruto de um estudo iniciado em 2017 com lactantes atendidas em hospitais de Belo Horizonte.
A pesquisa analisou 71 mulheres - 47 atendidas no Hospital Sofia Feldman e 24 no Hospital Madre Teresa. Os cientistas observaram que o perfil bacteriano variava de acordo com o Índice de Massa Corporal (IMC) das mães.
Segundo o professor Flaviano dos Santos Martins, do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, algumas bactérias foram encontradas apenas no leite de mulheres com IMC considerado normal. Entre elas estão algumas já conhecidas pelas propriedades probióticas.
“Já sabíamos que a microbiota intestinal é diferente em mulheres magras e em mulheres obesas. As bactérias da classe Lactobacillus são facilmente encontradas em produtos probióticos e já são conhecidas como aliadas no controle da obesidade. A partir disso, surgiu o questionamento: se uma mãe com sobrepeso ou obesidade não apresenta essas bactérias em seu leite, elas não serão transmitidas ao bebê durante a amamentação. Dessa forma, aumentam as chances de esse bebê também ficar acima do peso”, explica o pesquisador.
Testes em laboratório
Após identificar os microrganismos no leite materno e no colostro - substância produzida nos primeiros dias após o parto - os pesquisadores realizaram experimentos em laboratório com camundongos obesos. Nos testes, algumas linhagens bacterianas demonstraram efeito positivo na perda de peso dos animais.
Os cientistas observaram que o resultado depende da linhagem específica do probiótico, já que nem todas as bactérias da mesma espécie apresentam o mesmo efeito metabólico. Além da redução de peso, os pesquisadores também investigaram o impacto desses microrganismos na compulsão alimentar e em processos inflamatórios associados à obesidade.
De acordo com Martins, a obesidade pode alterar a permeabilidade intestinal e permitir que bactérias do intestino entrem na corrente sanguínea, provocando inflamação sistêmica e até alterações no sistema nervoso, o que pode favorecer episódios de compulsão alimentar.
Próximo passo: testes em humanos
Com os resultados obtidos em laboratório, o grupo pretende agora avançar para testes clínicos em humanos. A ideia é desenvolver probióticos com as linhagens bacterianas que apresentaram melhores resultados. Segundo os pesquisadores, esses microrganismos podem futuramente ser utilizados tanto no tratamento da obesidade quanto na prevenção do ganho de peso.
A patente foi registrada com o título “Composições com atividade contra obesidade e compulsão alimentar compreendendo bactérias isoladas do leite materno humano e usos”. Além de Flaviano dos Santos Martins, também participam do estudo a professora Jacqueline Isaura Alvarez Leite, do Departamento de Bioquímica e Imunologia do ICB, e o pesquisador Bruno Gallotti Costa.
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