ALERTA NA SAÚDE

Mesmo prevenível, câncer do colo do útero ainda registra 19 mil casos por ano no Brasil

Baixa vacinação contra HPV e falhas no rastreamento mantêm doença em alta; especialistas alertam para impacto da desinformação

Do HOJE EM DIA
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Publicado em 19/03/2026 às 18:47.Atualizado em 19/03/2026 às 20:28.
Neste mês é realizado o Março Lilás, campanha nacional dedicada à conscientização e prevenção da doença (Reprodução)
Neste mês é realizado o Março Lilás, campanha nacional dedicada à conscientização e prevenção da doença (Reprodução)

Mesmo sendo um tipo de câncer considerado evitável, o câncer do colo do útero ainda deve atingir 19,3 mil mulheres por ano no Brasil entre 2026 e 2028, segundo estimativa do Instituto Nacional de Câncer (Inca). A doença está diretamente ligada à infecção pelo HPV e poderia ser controlada com vacinação e exames preventivos, mas segue avançando no país. Neste mês é realizado o Março Lilás, campanha nacional dedicada à conscientização e prevenção da doença.

A incidência atual é de aproximadamente 17 casos a cada 100 mil mulheres, mais de quatro vezes acima da meta da Organização Mundial da Saúde (OMS), que prevê menos de 4 casos por 100 mil. O Brasil aderiu à estratégia global de eliminação da doença em 2018, baseada em vacinação, rastreamento e tratamento precoce, mas ainda enfrenta dificuldades para atingir esses objetivos.

Vacinação e exame ainda não alcançam a população

Entre os principais entraves estão a adesão insuficiente ao rastreamento. “A baixa cobertura vacinal para HPV, ainda abaixo do recomendado pela OMS, e o rastreamento insuficiente para a população-alvo. Mulheres que não fazem rastreamento conforme recomendado seguem invisíveis para o sistema de saúde até o câncer se instalar”, afirma a ginecologista oncológica Sálua Calil, da Rede Mater Dei.

Além disso, fatores sociais e estruturais também dificultam o controle da doença, como o acesso limitado a serviços de saúde e a falta de especialistas em algumas regiões. “Há barreiras logísticas importantes como dificuldade de acesso, baixa oferta de especialistas em locais mais remotos e baixo nível socioeconômico, o que gera vulnerabilidade ainda maior”, explica a oncologista Cristina Pirfo, também da rede.

Desinformação ainda afasta mulheres da prevenção

Outro obstáculo relevante é a circulação de informações equivocadas sobre a doença, a vacina e os exames preventivos. Um dos mitos mais comuns, segundo especialistas, é a crença de que mulheres em relacionamentos estáveis não precisam realizar o exame preventivo.

“O câncer do colo uterino pode demorar anos para se desenvolver e o HPV pode ter sido adquirido em uma relação anterior à atual, por exemplo. Ou seja, ter parceiro único não garante ausência de exposição passada ao vírus”, explica Sálua Calil.

Também é frequente o receio em relação à vacina contra o HPV, apesar de sua segurança comprovada, além da falsa ideia de que o exame só deve ser feito quando há sintomas. “O HPV é extremamente comum e pode permanecer latente por anos, então o diagnóstico não permite determinar quando ocorreu a infecção”, afirma Cristina Pirfo.

Avanços no diagnóstico ampliam chances de controle

Nos últimos anos, novas tecnologias passaram a integrar o rastreamento da doença. O teste de DNA para HPV, por exemplo, já foi incorporado aos protocolos e permite identificar o vírus com maior precisão do que o exame tradicional.

Segundo especialistas, quando o resultado é negativo, o intervalo entre os exames pode chegar a cinco anos, o que facilita a adesão das pacientes. Ainda assim, a recomendação é clara: mesmo vacinadas, as mulheres devem continuar realizando exames preventivos. “Vacina e rastreamento são complementares, não substitutos”, reforça Sálua.

Doença atinge mais mulheres vulneráveis

Diferentemente de outros tipos de câncer, o tumor do colo do útero está fortemente associado a desigualdades sociais, já que depende diretamente do acesso à prevenção. O oncoginecologista Augusto Brandão destaca que a doença ainda tem alta incidência justamente por ser evitável. “É um câncer com incidência ainda muito alta no país e que precisa ser visto de forma integrada por todas as especialidades”, afirma.

Segundo ele, enquanto o câncer de mama apresenta distribuição mais homogênea, o de colo do útero é mais frequente em mulheres em situação de vulnerabilidade, o que reforça a necessidade de políticas públicas eficazes e ampliação do acesso à prevenção.

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