Relógio inteligente ajuda a acompanhar coração, mas não substitui exames, alerta cardiologista
Dispositivos estimam frequência cardíaca e recuperação, mas não são capazes de confirmar infarto ou outras doenças cardiovasculares

Os relógios inteligentes ganham cada vez mais espaço entre quem pratica atividade física, levando informações que antes ficavam restritas aos consultórios médicos. Frequência cardíaca, zonas de treino, recuperação, sono e até estimativas de VO₂ máximo (capacidade do corpo de absorver, transportar e utilizar oxigênio durante um exercício intenso) aparecem na tela em poucos segundos. Os dados podem ajudar a acompanhar mudanças no organismo, mas não substituem a avaliação com um especialista nem exames capazes de identificar problemas no coração.
O alerta é da coordenadora do Serviço de Cardiologia da Rede Mater Dei, Patrícia Tavares, em meio ao Setembro Vermelho, mês de conscientização sobre as doenças cardiovasculares. O Dia Mundial do Coração é celebrado nesta terça-feira (29).
Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), as doenças cardiovasculares provocam cerca de 350 mil mortes por ano no Brasil e representam aproximadamente 30% dos óbitos no país.
“Os wearables (dispositivos eletrônicos) são aliados importantes da saúde, pois ajudam a acompanhar, fora do consultório, as tendências dos dados de atividade física, frequência cardíaca e sono. No entanto, a precisão varia conforme o aparelho, o algoritmo, o ajuste no pulso, o tipo de exercício e as características da pessoa. Esses números devem ser vistos como informações complementares, e não como diagnóstico”, afirma.
Zona de treino não é igual para todo mundo
Um dos dados mais populares entre quem pratica exercícios são as zonas de frequência cardíaca. Elas indicam diferentes níveis de esforço durante a atividade e costumam ser calculadas pelos relógios a partir de estimativas da frequência cardíaca máxima.
Uma das fórmulas mais conhecidas é “220 menos a idade”. O problema é que a conta representa uma média populacional e não leva em consideração as diferenças entre indivíduos.
Duas pessoas com a mesma idade, por exemplo, podem ter frequências cardíacas máximas diferentes. O resultado também pode sofrer influência do condicionamento físico, de medicamentos e de condições de saúde.
Quem usa betabloqueadores, medicamentos utilizados em alguns tratamentos de hipertensão e arritmias, pode apresentar frequência cardíaca mais baixa durante o exercício. Nesse caso, a zona indicada pelo relógio pode não representar com precisão a intensidade do esforço.
A percepção de esforço e o chamado teste da fala podem ajudar nesses casos. Se a pessoa ainda consegue conversar em frases completas durante a atividade, por exemplo, o esforço tende a estar em uma intensidade moderada.
“A zona 2, por exemplo, é uma faixa estimada. Para defini-la com precisão, precisamos considerar o objetivo daquela pessoa e seus limiares de esforço”, explica Patrícia.
Relógio não detecta infarto
Outro cuidado é não interpretar como diagnóstico os alertas apresentados pelos dispositivos. Alguns modelos conseguem identificar alterações no ritmo cardíaco e registrar um traçado semelhante ao de um eletrocardiograma simples.
O recurso pode ajudar na identificação de sinais de fibrilação atrial, uma das arritmias mais comuns. Porém, o registro feito pelo relógio é de uma única derivação, enquanto o eletrocardiograma convencional utiliza 12. Além disso, um resultado normal no aparelho não descarta uma doença cardíaca.
A cardiologista destaca que sintomas devem ser levados em consideração mesmo quando o dispositivo não aponta nenhuma alteração. “Se a pessoa sente palpitações, desmaia, apresenta falta de ar ou dor no peito durante o exercício, ela precisa ser avaliada independentemente do que o relógio está mostrando. O dispositivo pode levantar uma dúvida, mas não confirma a causa”.
Exames confirmam o que o relógio apenas indica
Quando existe necessidade de investigar sintomas ou alterações, diferentes exames podem ser utilizados de acordo com cada caso. O eletrocardiograma avalia a atividade elétrica do coração em repouso. O Holter registra os batimentos durante um período mais longo, geralmente 24 horas, e pode ajudar a identificar alterações que não aparecem durante uma consulta.
O teste ergométrico avalia a resposta do coração ao exercício, enquanto o ecocardiograma permite analisar a estrutura e o funcionamento cardíaco. Já o MAPA acompanha a pressão arterial durante 24 horas. O teste cardiopulmonar de exercício, por sua vez, reúne informações sobre o funcionamento cardiovascular e respiratório durante o esforço.
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