
A apresentação do McLaren W1, no Festival de Velocidade de Goodwood, reacendeu uma memória afetiva entre entusiastas de automóveis. Afinal, o supercarro de quase 1.300 cv é um sucessor direto do F1, considerado o melhor carro já feito no mundo. Assim, vamos relembrar esse clássico que é quase uma obra da mitologia contemporânea.
No início da década de 1990, a McLaren decidiu entrar em um segmento completamente diferente daquele que havia consolidado sua reputação. Em vez de apenas disputar títulos na Fórmula 1, a fabricante britânica resolveu desenvolver um automóvel de rua capaz de reunir o máximo da tecnologia empregada nas pistas. O resultado foi o McLaren F1, lançado em 1992 e até hoje considerado um dos projetos mais influentes da história da indústria automotiva.
A ideia surgiu ainda em 1988, quando o engenheiro Gordon Murray começou a desenhar um esportivo sem limitações de custo ou de desempenho. Seu objetivo era criar o melhor carro de rua do mundo, e não apenas o mais veloz.
O projeto previa estrutura monocoque de fibra de carbono, posição de dirigir central, dois bancos para passageiros posicionados atrás do motorista e uma construção focada na redução de peso. Na época, soluções como o chassi de fibra de carbono eram praticamente exclusivas da Fórmula 1.
O maior desafio estava sob o capô. Murray queria um motor aspirado, compacto, leve e com cerca de 550 cv. Após consultar diferentes fabricantes, a McLaren encontrou na BMW Motorsport a parceira ideal. Sob o comando do engenheiro Paul Rosche, a divisão esportiva da marca alemã desenvolveu o V12 S70/2 de 6,1 litros exclusivamente para o F1.
O resultado surpreendeu até os responsáveis pelo projeto. O novo motor era aproximadamente 16 quilos mais pesado que o limite estipulado por Murray, um detalhe importante em um carro projetado com obsessão pela redução de massa.
Em compensação, entregava cerca de 627 cv e 66 kgfm de torque, números muito acima da potência inicialmente solicitada. O desempenho fez a McLaren aceitar o peso extra, que acabou compensado por outras soluções de engenharia.
Para suportar o calor gerado pelo V12, o compartimento do motor recebeu revestimento em folhas de ouro, material escolhido por sua elevada capacidade de refletir calor. O conjunto ainda utilizava câmbio manual de seis marchas, suspensão de competição adaptada para uso urbano e uma aerodinâmica limpa, dispensando grandes asas ou apêndices móveis.
Curiosamente, o projeto quase não saiu do papel. Segundo relatos de Gordon Murray e do então chefe da equipe, Ron Dennis, Ayrton Senna acreditava que a McLaren deveria concentrar recursos exclusivamente na Fórmula 1. O tricampeão brasileiro entendia que investir em um automóvel de rua poderia desviar tempo e orçamento de uma equipe que disputava campeonatos mundiais. Dennis ouviu o conselho, mas decidiu seguir com o desenvolvimento, convencido de que o projeto fortaleceria a marca também fora das pistas.
A decisão transformou a história da fabricante. Em 1995, o McLaren F1 GTR venceu as 24 Horas de Le Mans logo na estreia, superando protótipos desenvolvidos especificamente para competição. Três anos depois, a versão de rua alcançou 386,4 km/h, estabelecendo o recorde mundial de velocidade para um automóvel de produção equipado com motor aspirado.
Entre 1992 e 1998 foram produzidas apenas 106 unidades, incluindo versões de rua, competição e protótipos. Mais de 30 anos depois, o McLaren F1 continua sendo referência em engenharia automotiva. Concebido sem a preocupação de seguir tendências, o modelo provou que desempenho pode nascer da combinação entre baixo peso, eficiência mecânica e soluções inovadoras.
Também mostrou que uma aposta considerada arriscada (e que chegou a ser desencorajada por Ayrton Senna) acabaria dando origem a um dos automóveis mais importantes de todos os tempos.