
Enzo Ferrari construía carros para poder custear suas corridas. Akio Toyoda vende milhões de carros todos os anos para satisfazer sua paixão por velocidade.
O chefão da Toyota gosta de correr e tem uma paixão cega pela divisão Gazoo Racing (GR). Foi ele quem deu a ordem de desenvolver uma carroceria duas portas para o Yaris que compete no WRC.
Deu tão certo que o GR Yaris se tornou um carro de produção e conquistou seis dos últimos sete títulos do WRC. Toyoda também levou a cabo sua missão de cravar o nome da marca japonesa em Le Mans. Entre 2018 e 2022, a Toyota subiu ao posto mais alto do pódio.
O TS050 Hybrid foi o último carro da categoria LMP1 a vencer a prova francesa, enquanto o GR10 Hybrid foi o primeiro vencedor na categoria Hypercar.
Depois de tantas conquistas, To<CS9.3>yoda poderia se dar por satisfeito. Mas sejamos francos, se o amigo leitor fosse o chefão de uma das marcas mais poderosas do mundo, você largaria o osso? Pois é!
E o senhor Toyoda resolveu ir além. Mandou desenvolver um GT para competições de turismo, desenhado para as categorias GT3 da FIA. Trata-se do GR GT, um cupê largo, baixo, com cara de poucos amigos.
Diferentemente dos demais carros que disputam provas GT3, que naturalmente são modelos de produção em série e que são adaptados para se adequar ao regulamento da FIA, o GR GT faz o contrário.
O carro nasceu para as pistas e sua versão de rua se adaptou para obedecer as exigências legais de homologação para uso urbano. Quando se bate o olho, é um legítimo gran turismo. Frente enorme, com balanço dianteiro longo, traseira curta e cabine só para dois ocupantes.
Seu desenvolvimento levou em conta dados recolhidos de pistas como Nurburgring e Fuji Speedway. Fatores que indicam que o modelo irá competir em campeonatos de turismo no Velho Mundo e também no famoso Super GT japonês.
Claro que o carro tem suas comodidades, como multimídia, quadro de instrumentos digital, assistentes de condução, climatização digital, partida sem chave e tudo aquilo que necessário em um carro “emplacado”. Não dá mais para fazer como o saudoso Ferrari, que lançou a F40 que, por dentro, parecia uma máquina de tortura medieval.
Mesmo assim é um carro pensado para performance extrema. A cabine foi configurada com foco na ergonomia de pilotagem, com posição de condução otimizada, boa visibilidade e comandos próximos ao volante, apoiados por um cluster que reúne as informações essenciais. Ou seja, os olhos sempre na pista e tudo mais é registrado pela visão periférica.
Debaixo da casca
Mas o que importa mesmo são seus atributos técnicos, pensados para a versão GT3, que abre mão de todas as firulas. O GR GT Concept utiliza um novo motor V8 biturbo de 4,0 litros, desenvolvido com configuração “hot-V” e curso curto (87,5 × 83,1 mm), projetado para reduzir massa e melhorar a resposta. O conjunto adota lubrificação por cárter seco, o que diminui a altura do motor e contribui para baixar o centro de gravidade.
O V8 trabalha em conjunto com um motor elétrico, formando um sistema híbrido cuja meta de potência total supera 650 cv, com torque combinado acima de 86 kgfm. A transmissão automática de oito marchas opera com transeixo traseiro e diferencial de deslizamento limitado, conectados por um eixo de torque em CFRP, enviando força exclusivamente às rodas traseiras.
A estrutura do modelo emprega o primeiro chassi totalmente em alumínio desenvolvido pela Toyota. A carroceria combina painéis em alumínio e componentes em plástico reforçado com fibra de carbono (CFRP), adotados para reduzir peso e elevar a rigidez torsional. A distribuição dos materiais foi definida para otimizar o comportamento dinâmico e permitir respostas mais precisas em condução esportiva.
O projeto exterior foi concebido com abordagem “aerodynamics-first”, envolvendo engenheiros e designers desde as fases iniciais para determinar a forma ideal antes da definição estética final. Essa metodologia permitiu obter coeficiente aerodinâmico eficiente, com fluxo de ar orientado para refrigeração dos sistemas e estabilidade em alta velocidade, visando superar 320 km/h.
O empacotamento interno (incluindo motor, transmissão do tipo transeixo, bateria e tanque) foi calibrado para minimizar o centro de gravidade e equilibrar massas em relação ao condutor. Daí a frente tão longa, toda massa deve ficar entre os eixos.
A suspensão é de competição com braços triangulares duplos (double-wishbone) nas quatro rodas, feitos em alumínio forjado para reduzir peso. Os pneus Michelin Pilot Sport Cup 2 foram criados sob medida para o veículo, enquanto os freios de composto cerâmico garantem elevada resistência térmica e estabilidade na frenagem. A Toyota espera lançar o GR GT em 2027, e iniciar mais uma dinastia.